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ROSSET, O Artifício e o Aquiagorismo

Por Arthur Soffiati*

Na atualidade, um dos mais competentes e implacáveis críticos dos movimentos de defesa do ambiente é, sem dúvida, o filósofo francês Clément Rosset, que esteve no Brasil em agosto último para um seminário. Suas duas idéias-força são o artifício e a adesão integral à realidade. A primeira foi magistralmente exposta em A Anti-Natureza: Elementos para uma Filosofia Trágica (Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989), talvez seu livro clássico e também o mais conhecido. A maioria dos chamados ambientalistas não o leu, absorvida que, costumeiramente, está num ativismo irrefletido e na leitura de relatórios, de estudos de impacto ambiental e de alguma sorte de manual. Nele, o autor sustenta que o ocidente (incluindo Grécia, Roma, Europa Ocidental e Estados Unidos) só produziu 19 filósofos originais e que os pensadores e artistas se dividem em três categorias: os naturalistas (aqueles que acreditam na existência da natureza), os quase artificialistas (que acabam descambando para o naturalismo) e os artificialistas (que não apenas ignoram a natureza, mas também não crêem em sua existência).

Os naturalistas crêem piamente que, por trás do pensamento, existe a natureza em si, fundamento do ser, da sociedade e da transformação da sociedade. Platão, Aristóteles, Santo Tomás de Aquino, Rousseau e Marx podem ser considerados naturalistas. A própria idéia de revolução tem uma raiz natural. É como se uma força da natureza, independente do ser humano, atuasse para transformar a realidade, assim como a mutação genética e a seleção natural, na teoria sintética da evolução. No outro extremo, situam-se os artificialistas, para quem o mundo não passa de uma criação do discurso. Empédocles, os sofistas, os atomistas da antiguidade (principalmente Lucrécio), Maquiavel, Baltasar Gracián e Hobbes. Para estes, a natureza não existe.

Com relação aos sofistas, pode-se admitir que o discurso vale mais que qualquer referencial estável ancorado no mundo exterior, já que eles podem demonstrar, através de argumentação artificiosa, tanto o A quanto o não-A. Eis porque Platão, ao perceber que seu discurso corria o risco de não passar de mais um discurso, como os dos sofistas, procurou relacioná-lo à construção da boa sociedade, vale dizer, de uma utopia. Baltasar Gracián, que poucos conhecem, da mesma forma escreveu uma espécie de manual para viver numa sociedade frívola (A Arte da Sabedoria Mundana. São Paulo: Best Seller, s/d).

No caso de Empédocles e de Lucrécio, considero estranho colocá-los como artificialistas. Empédocles desenvolveu um pensamento intuitivo que, dentre os pensadores físicos da Grécia, mais o aproxima da ecologia enquanto ciência. Da mesma forma, Lucrécio, com seu poema De Rerum Natura, exalta a natureza de uma forma que Rosset não percebe. A política de Maquiavel envolve incontáveis artifícios, mas, na sua base ou em sua retaguarda, não se nega a existência da natureza. O contrato social em que acreditava Hobbes pode ser uma criação artificial de seres humanos que decidem suspender o natural estado de guerra declarada para a criação do estado de sociedade e político, mas a natureza continua a pulsar recalcada no interior de cada um. Assim, o artifício que Rosset enxerga em certos pensadores parece uma forma de interpretar seus discursos de uma forma... artificialista. Aliás, resiste, atualmente, um entendimento de que a realidade material desapareceu diante da realidade representacional. Em outras palavras, o território não existe, mas apenas o seu mapa.

E não é só. A defesa ardente do artifício por Rosset é contrariada em algumas declarações suas. "A banana é tão química como o agrotóxico" ou "minha depressão decorre exclusivamente de uma disfunção do meu cérebro", por exemplo. Nega-se a existência da natureza, mas, na impossibilidade de eliminá-la, ao reconhecê-la, o filósofo trata-a pelo prisma do senso comum. Certo que a banana tem uma composição química tanto quanto o agrotóxico. Na natureza não-humana também existem seres que servem de alimento e que podem envenenar.

Quanto ao princípio de adstrição íntima ao real, exposto melhor em O Princípio da Crueldade (Rio de Janeiro: Rocco, 1989) e Lógica do Pior (Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989), livros também desconhecidos pelos ambientalistas, Rosset defende uma noção pobre da realidade, a meu ver. Ela não passa do real completamente desnudo da complexidade do ser e da sociedade, dos projetos e das utopias. A seu juízo, não passa de ilusão acreditar que se possa transformar o real. Se transformação há, ela se faz por conta própria ou pelos seres humanos dentro de marcos restritos, nunca implicando em revolução. Assim, devemos aceitar o real como tragédia, isto é, como algo inevitável, como pensavam os gregos. Aceitar o real é aceitar a vida como ela é: com suas misérias, injustiças, dores e crimes. E, já que não há como fugir da realidade, devemos encará-la com alegria. Neste ponto, Rosset aproxima-se do pensamento de Emil Michel Cioran, outro pensador trágico falecido não faz muito tempo. A diferença é que Cioran via a decadência do mundo ocidental e ocidentalizado com pessimismo.

É em nome de um real que se movimenta muito pouco a partir de si mesmo, assemelhando-se mais a algo que poderíamos denominar pelo neologismo de aquiagorismo, de aqui e agora, que Rosset condena os movimentos de defesa do ambiente em todos os seus matizes, por entendê-los utópicos, reacionários, nostálgicos do passado e descrentes da tecnologia. Ora, o real é complexo e, nesta complexidade, compreende também as grandezas, a espiritualidade, as utopias e as transformações. Compreende ainda a complexidade do ser, criando espaço para uma neurologia, uma psiquiatria, uma psicanálise e uma noologia. Considerar que a ética e a estética se confundem parece uma concepção reducionista. Como dizia Toynbee ao analisar o pensamento de Sócrates, para quem o bom equivalia ao belo, certamente a beleza estética de Atenas, construída com dinheiro do fundo de Delos, cuja finalidade era a defesa da Grécia contra a Pérsia, não era ético.

A concepção de Rosset acerca dos ecologistas é rasa. Não é para o passado que eles olham, mas para o futuro. Não é o irracionalismo que eles cultivam, embora o considerem como emergência intrínseca do Homo sapiens, que é ao mesmo tempo demens. Não é a tecnologia que eles condenam, mas a tecnologia adjetivada da Modernidade. Aos olhos do ecologista, a crise ambiental, provocada por tecnologias duras produzidas pela Modernidade em suas formas liberal e socialista, não será solucionada por esta mesma tecnologia, mas por uma outra, a ecotecnologia.

Seja como for, é sempre bem-vinda a provocação de um pensador arguto como Clément Rosset.

* Arthur Soffiati é ambientalista, escritor, professor da Universidade Federal Fluminense e Conselheiro do Centro Norte Fluminense para Conservação da Natureza.

E-mail:<soffiati@censa.com.br>

 

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