| Na
atualidade, um dos mais competentes e implacáveis críticos
dos movimentos de defesa do ambiente é, sem dúvida,
o filósofo francês Clément Rosset, que esteve
no Brasil em agosto último para um seminário.
Suas duas idéias-força são o artifício
e a adesão integral à realidade. A primeira foi
magistralmente exposta em A Anti-Natureza: Elementos para uma
Filosofia Trágica (Rio de Janeiro: Espaço e Tempo,
1989), talvez seu livro clássico e também o mais
conhecido. A maioria dos chamados ambientalistas não
o leu, absorvida que, costumeiramente, está num ativismo
irrefletido e na leitura de relatórios, de estudos de
impacto ambiental e de alguma sorte de manual. Nele, o autor
sustenta que o ocidente (incluindo Grécia, Roma, Europa
Ocidental e Estados Unidos) só produziu 19 filósofos
originais e que os pensadores e artistas se dividem em três
categorias: os naturalistas (aqueles que acreditam na existência
da natureza), os quase artificialistas (que acabam descambando
para o naturalismo) e os artificialistas (que não apenas
ignoram a natureza, mas também não crêem
em sua existência).
Os naturalistas
crêem piamente que, por trás do pensamento, existe
a natureza em si, fundamento do ser, da sociedade e da transformação
da sociedade. Platão, Aristóteles, Santo Tomás
de Aquino, Rousseau e Marx podem ser considerados naturalistas.
A própria idéia de revolução tem
uma raiz natural. É como se uma força da natureza,
independente do ser humano, atuasse para transformar a realidade,
assim como a mutação genética e a seleção
natural, na teoria sintética da evolução.
No outro extremo, situam-se os artificialistas, para quem
o mundo não passa de uma criação do discurso.
Empédocles, os sofistas, os atomistas da antiguidade
(principalmente Lucrécio), Maquiavel, Baltasar Gracián
e Hobbes. Para estes, a natureza não existe.
Com relação
aos sofistas, pode-se admitir que o discurso vale mais que
qualquer referencial estável ancorado no mundo exterior,
já que eles podem demonstrar, através de argumentação
artificiosa, tanto o A quanto o não-A. Eis porque Platão,
ao perceber que seu discurso corria o risco de não
passar de mais um discurso, como os dos sofistas, procurou
relacioná-lo à construção da boa
sociedade, vale dizer, de uma utopia. Baltasar Gracián,
que poucos conhecem, da mesma forma escreveu uma espécie
de manual para viver numa sociedade frívola (A Arte
da Sabedoria Mundana. São Paulo: Best Seller, s/d).
No caso
de Empédocles e de Lucrécio, considero estranho
colocá-los como artificialistas. Empédocles
desenvolveu um pensamento intuitivo que, dentre os pensadores
físicos da Grécia, mais o aproxima da ecologia
enquanto ciência. Da mesma forma, Lucrécio, com
seu poema De Rerum Natura, exalta a natureza de uma forma
que Rosset não percebe. A política de Maquiavel
envolve incontáveis artifícios, mas, na sua
base ou em sua retaguarda, não se nega a existência
da natureza. O contrato social em que acreditava Hobbes pode
ser uma criação artificial de seres humanos
que decidem suspender o natural estado de guerra declarada
para a criação do estado de sociedade e político,
mas a natureza continua a pulsar recalcada no interior de
cada um. Assim, o artifício que Rosset enxerga em certos
pensadores parece uma forma de interpretar seus discursos
de uma forma... artificialista. Aliás, resiste, atualmente,
um entendimento de que a realidade material desapareceu diante
da realidade representacional. Em outras palavras, o território
não existe, mas apenas o seu mapa.
E não
é só. A defesa ardente do artifício por
Rosset é contrariada em algumas declarações
suas. "A banana é tão química como
o agrotóxico" ou "minha depressão
decorre exclusivamente de uma disfunção do meu
cérebro", por exemplo. Nega-se a existência
da natureza, mas, na impossibilidade de eliminá-la,
ao reconhecê-la, o filósofo trata-a pelo prisma
do senso comum. Certo que a banana tem uma composição
química tanto quanto o agrotóxico. Na natureza
não-humana também existem seres que servem de
alimento e que podem envenenar.
Quanto
ao princípio de adstrição íntima
ao real, exposto melhor em O Princípio da Crueldade
(Rio de Janeiro: Rocco, 1989) e Lógica do Pior (Rio
de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989), livros também
desconhecidos pelos ambientalistas, Rosset defende uma noção
pobre da realidade, a meu ver. Ela não passa do real
completamente desnudo da complexidade do ser e da sociedade,
dos projetos e das utopias. A seu juízo, não
passa de ilusão acreditar que se possa transformar
o real. Se transformação há, ela se faz
por conta própria ou pelos seres humanos dentro de
marcos restritos, nunca implicando em revolução.
Assim, devemos aceitar o real como tragédia, isto é,
como algo inevitável, como pensavam os gregos. Aceitar
o real é aceitar a vida como ela é: com suas
misérias, injustiças, dores e crimes. E, já
que não há como fugir da realidade, devemos
encará-la com alegria. Neste ponto, Rosset aproxima-se
do pensamento de Emil Michel Cioran, outro pensador trágico
falecido não faz muito tempo. A diferença é
que Cioran via a decadência do mundo ocidental e ocidentalizado
com pessimismo.
É
em nome de um real que se movimenta muito pouco a partir de
si mesmo, assemelhando-se mais a algo que poderíamos
denominar pelo neologismo de aquiagorismo, de aqui e agora,
que Rosset condena os movimentos de defesa do ambiente em
todos os seus matizes, por entendê-los utópicos,
reacionários, nostálgicos do passado e descrentes
da tecnologia. Ora, o real é complexo e, nesta complexidade,
compreende também as grandezas, a espiritualidade,
as utopias e as transformações. Compreende ainda
a complexidade do ser, criando espaço para uma neurologia,
uma psiquiatria, uma psicanálise e uma noologia. Considerar
que a ética e a estética se confundem parece
uma concepção reducionista. Como dizia Toynbee
ao analisar o pensamento de Sócrates, para quem o bom
equivalia ao belo, certamente a beleza estética de
Atenas, construída com dinheiro do fundo de Delos,
cuja finalidade era a defesa da Grécia contra a Pérsia,
não era ético.
A concepção
de Rosset acerca dos ecologistas é rasa. Não
é para o passado que eles olham, mas para o futuro.
Não é o irracionalismo que eles cultivam, embora
o considerem como emergência intrínseca do Homo
sapiens, que é ao mesmo tempo demens. Não é
a tecnologia que eles condenam, mas a tecnologia adjetivada
da Modernidade. Aos olhos do ecologista, a crise ambiental,
provocada por tecnologias duras produzidas pela Modernidade
em suas formas liberal e socialista, não será
solucionada por esta mesma tecnologia, mas por uma outra,
a ecotecnologia.
Seja como
for, é sempre bem-vinda a provocação
de um pensador arguto como Clément Rosset.
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Arthur Soffiati é ambientalista, escritor,
professor da Universidade Federal Fluminense e Conselheiro
do Centro Norte Fluminense para Conservação
da Natureza.
E-mail:<soffiati@censa.com.br>
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