A
Agenda 21 é um processo de internalização
do desenvolvimento sustentável e não um documento
oficial para o Brasil entregar em 2002, na Rio+10, em Joanesburgo,
na África do Sul.
Em 1992,
a Conferência do Rio elegeu a Agenda 21 como instrumento
de construção do desenvolvimento sustentável,
para conter a degradação ambiental e permitir
a continuidade da vida no planeta. A Agenda 21 global apontou
as condições da ordem mundial necessárias
para a viabilização do desenvolvimento sustentável
e estabeleceu os princípios para a construção
das agendas 21 dos países, regiões, estados,
cidades, de modo a que a adoção da sustentabilidade
por todos os cidadãos do mundo pudesse mudar os rumos
do crescimento econômico global ambientalmente predatório
e socialmente excludente. A idéia que se consagrou
foi "pensar globalmente e agir localmente".
No Brasil,
já havíamos, desde 1981, aprovado nossa Lei
da Política Nacional do Meio Ambiente, tendo, a dimensão
ambiental, sido ainda mais fortalecida na Constituição
de 1988, o que nos legitimou a sediar, em 1992, a citada Conferência,
considerado o mais significativo evento diplomático
do final do século XX. Nos últimos dez anos,
o país passou por um intenso processo de regulamentação
e de institucionalização para o controle das
atividades degradadoras, e de tentativa de internalização
da proposta do desenvolvimento sustentável nos setores
públicos e privados e no cotidiano dos cidadãos.
Este esforço de internalização, apesar
dos resultados já colhidos pelas atitudes espontâneas
de cada um dos setores, tem custado um pouco a fluir, dada
à dificuldade natural de incorporação,
pela sociedade, da inovação que representa construir
agendas de compromisso para a sustentabilidade.
Por patrocinar
uma nova cultura política para o país e suas
corporações, este procedimento ainda é
objeto de inúmeros mal entendidos. Por isso, é
preciso esclarecer que a Agenda 21 não é um
"documento" que "precisa ficar pronto"
e ser "entregue" a quem quer que seja. A Agenda
21 é um "processo" em que toda a sociedade
avalia o presente e aponta os rumos para o futuro. Não
é um "documento de governo", mas sim a instalação
de um fórum permanente, em que a sociedade diagnostica
seus problemas ambientais, econômicos e sociais, e manifesta
sua opção pelo desenvolvimento sustentável,
estabelecendo metas para sua implementação.
A Agenda 21 veio se antecipar como método de uma nova
maneira de proceder à governança, na qual a
sociedade civil toma parte ativamente e não apenas
nos períodos eleitorais em que define o quadro de dirigentes
para o país. Conforme já havia dito o próprio
Presidente da República, a sociedade amadureceu o suficiente
para não mais aceitar as políticas dos diversos
setores como um "prato feito" a ser engolido, mas
quer participar da concepção e da avaliação
permanente das decisões nacionais.
Como se
vê, a Agenda 21 é um instrumento de democracia
participativa, sem a qual não será possível
construir o desenvolvimento sustentável, capaz de reverter
os rumos da destruição. É uma ferramenta
para a tomada de decisão, uma vez que é inquestionável
sua legitimidade, devendo ser adotada pelo corpo dirigente
da sociedade, que, agora, não mais recebe apenas a
delegação para governar, mas as diretrizes de
como deve fazê-lo.
Portanto,
não cabe cobrar do governo sua realização,
pois ele é apenas parte desse exercício social,
não lhe cabendo a simples incumbência de gerar
um produto, mas apenas de ser um veículo facilitador
do processo. Uma agenda 21, aliás, pode ser iniciada
por qualquer entidade organizada e representativa da sociedade.
Dessa forma, ao invés da simples crítica ao
governo, por não ter "concluído" a
agenda 21, cabe sim integrar as fileiras para sua construção,
pois as ONGs, a academia e os setores produtivos são
responsáveis, tanto quanto o setor governamental, por
sua realização. Todos estão representados
na Comissão de Políticas Sustentáveis
e Agenda 21 Nacional que, desde 1997, coordena o processo
em todo o país.
Vale também
ressaltar que estão representados na Comissão,
não somente a área ambiental do governo, mas
todas as outras áreas governamentais envolvidas com
o crescimento sustentável do país. Essa composição
permitiu que diretrizes já estabelecidas na Agenda
21 em construção fossem internalizadas, mesmo
que de forma incipiente, no Plano Plurianual - PPA 2000-2003.
Posteriormente, esse engajamento nacional, que trouxe à
tona a vertente ambiental para decisão do futuro do
país, também propiciou a reavaliação
da proposta do Eixo de Integração e Desenvolvimento
da Amazônia, constante do PPA, que aguarda, para o seu
prosseguimento, a condução de um estudo de impactos
agregados, capaz de apontar e fazer mitigar os impactos ambientais
e sociais das obras de infra-estrutura anteriormente pensadas
para a região.
Essa é
a idéia da Agenda 21 brasileira, a idéia de,
na esfera nacional, intervir no planejamento de obras de grande
impacto e nos critérios para a alocação
de recursos públicos e privados para o desenvolvimento
do país. É, no entanto, nas esferas regionais
e locais que, baseada na vocação ambiental de
cada região e nas metas de inclusão social,
a sociedade estará, sob a orientação
da Agenda nacional, construindo suas agendas 21 e colocando
em prática o dístico "pensar globalmente,
agir localmente".
Quanto
à nossa atuação na esfera internacional,
avaliamos que justamente o fortalecimento da política
ambiental brasileira e nossos esforços pela internalização
do desenvolvimento sustentável têm-nos permitido
ocupar lugar de destaque na construção do entendimento
global para as questões ambientais. Em Bonn, nossa
atuação, juntamente com a União Européia,
foi fundamental para impedir o esfacelamento do Protocolo
de Kyoto, dada a recusa do governo americano em ratificá-lo.
Lá conseguimos a continuidade das negociações
pela redução das emissões de gases do
efeito estufa, que deverão ter prosseguimento, na reunião
em curso, em Marrakech.
Nessa
última semana, no Rio de Janeiro, iniciamos, com toda
a América Latina e o Caribe, um esforço continental
para agirmos em bloco, levando à Cúpula Mundial
para o Desenvolvimento Sustentável - a Rio + 10 - uma
posição concertada, que exige das nações
desenvolvidas o resgate dos compromissos firmados na Rio 92,
principalmente no que se refere às mudanças
nos padrões de produção e consumo e nos
fluxos de recursos financeiros e tecnológicos para
a construção da sustentabilidade. A idéia
é recuperarmos, em Joanesburgo, um espaço de
negociação que amarre compromissos mais concretos
pelo desenvolvimento sustentável, buscando, no cenário
político internacional, um caminho oposto à
intolerância e à guerra, que são incompatíveis
com o pacto firmado pela sustentabilidade. Entendo que esse
é o principal desafio para o novo século: estar
a todo o momento construindo - nos níveis local, nacional
e global - as condições de paz e de responsabilidade
social e ambiental, sem fronteiras, para o desenvolvimento.
As agendas 21 são os instrumentos democráticos
e participativos capazes de levar a cabo essa tarefa, pois,
em eterna construção, reavaliam os rumos tomados
e pactuam novos compromissos para dar viabilidade ao futuro.
*José Sarney Filho
é Ministro do Meio Ambiente.
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