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vida em nosso planeta surgiu na água. Ao longo de milhões
de anos de evolução, os organismos vivos se diversificaram
e espalharam pela Terra, sendo que a sobrevivência de
todas as espécies animais e vegetais continua ligada
à água. O ser humano, durante a gestação,
desenvolve-se dentro do ventre da mãe, envolto em água.
Após o nascimento, abre os olhos para a existência
chorando e os fecha pela morte, sob a unção das
lágrimas. A lágrima é menor que uma gota
dágua, mas se comporta como um meio de comunicação
universal, sendo a mensageira da dor e da alegria.
A importância
deste precioso líquido se manifesta de forma física,
devido à dependência do nosso corpo, que é
constituído de 75% de água, e também
pela espiritualidade. Na tradição cristã,
a água está ligada ao batismo, à purificação
e à regeneração. A ablução
com água é fundamental em todas as religiões,
do Islã ao Taoísmo. Para Lao Tse, no livro Tao
Te Ching, a água simboliza a suprema virtude.
Para os hindus, banhar-se ritualmente no rio Ganges é
uma experiência transcendente. O Rig Veda
dos hindus exalta a água como elemento que traz vida,
força e pureza: Vocês, águas que
reconfortam : tragam-me a força, a grandeza, a alegria
e a visão, diz um hino dos Vedas, pouco antes
de definir a água como regente dos povos. Segundo o
Alcorão, a água benta que cai do céu
é um dos símbolos divinos. Os jardins do paraíso
islâmico têm riachos e fonte de água límpida.
A maior
parte da superfície terrestre é coberta de água,
de cuja apenas um volume pouco maior que 2% é doce,
dos quais mais de 90% estão congelados nas regiões
polares ou armazenados em depósitos subterrâneos
muito profundos. As águas doces superficiais correspondem
a somente 0,001% deste potencial. Mais de 2/3 da água
doce é usada na irrigação, sendo contaminada
pelos agrotóxicos ou adubos. Nas cidades, o esgoto
das casas e indústrias é quase todo jogado nos
rios e no mar, sem tratamento. A água fica infectada,
inclusive com germes que causam doenças transmissíveis,
como o cólera. O garimpo polui os rios com mercúrio,
um metal pesado que causa o mal de minamata. Outro problema
é a poluição térmica. Ela ocorre
quando uma fábrica ou usina aquece água no processo
industrial e a despeja quente no rio ou no mar. O líquido
quente afeta o metabolismo de plantas e animais, que podem
morrer ou deixar de reproduzir-se.
O Brasil
é a maior reserva hidrológica do mundo. Da água
doce disponível no país, 70% estão na
região norte, 15% na região centro-oeste, 6%
no sudeste, 6% no sul e 3% no nordeste. Há, em tese,
pelo menos 34 milhões de litro de água para
cada brasileiro, embora 20% da população urbana
não disponha de rede de água e esgoto e 65%
das internações pediátricas sejam causadas
pela poluição da água. A irrigação
de um hectare no nordeste brasileiro consome 18 mil metros
cúbicos de água por ano, em Israel fica em torno
de 600 metros cúbicos. Enquanto o habitante de um oásis
no Saara usa cerca de 3 litros de água por dia, um
do Rio de Janeiro gasta 450, em Moscou 600 e, em Nova York,
1045. A quantidade média diária para satisfazer
todos os usos de uma pessoa é de 40 litros no máximo.
O consumo
mundial de água multiplicou por sete no século
XX, mais do que o dobro da taxa de crescimento populacional.
Em alguns países da África e do Oriente Médio,
a água já está escassa e, em função
disso, há racionamento. O ex-presidente do Egito, Anuar
Sadat (1918-1981), considerou o papel estratégico da
água, denominando-na de o ouro azul no
Oriente Médio, onde um copo dágua vale
mais do que um barril de petróleo. Fica claro, portanto,
que neste canto do mundo, para não citar outros, a
água pode vir a matar, por razões óbvias,
não somente devido à sede.
A escassez
é também a principal causa da degradação
da qualidade de vida de um bilhão de pessoas, sem acesso
à quantidade diária ideal estimada pela Organização
das Nações Unidas (ONU). No continente africano,
cerca de 62% da população só tem acesso
a algo em torno dos 4m3/habitante/dia, sendo que, em algumas
regiões, o índice é inferior a 3m3/habitante/dia.
Em média, o continente com maior disponibilidade de
água é a Oceania, seguida da América
do Sul, América do Norte, África, Europa e Ásia.
Em Nairobi,
no Quênia, algumas famílias vivem com o equivalente
a um copo de água por dia, durante os meses de seca.
E o preço da água mineral, nos supermercados,
é superior ao dos derivados de petróleo. O desafio
urbano da água está assumindo proporções
inimagináveis, em especial, em vastas áreas
da África. A taxa de urbanização africana
é, em média, de 5% ao ano a mais rápida
do mundo. Dos 138 milhões de pessoas que viviam em
cidades africanas, em 1990, espera-se passar para 500 milhões,
até 2020. A extrema escassez no abastecimento de água
vivida por 8 países sub-saharianos, em 1990, pode então
alcançar 20 países, de um total de 29 países
desta região.
Como no
Brasil, o maior desafio na África é a redução
do desperdício. Evaporação nos grandes
reservatórios, vazamentos nos sistemas de captação
e distribuição, ligações clandestinas
e uso irracional são os maiores inimigos dos programas
de educação ambiental. Mesmo nos programas internacionais,
como o Água para Cidades Africanas, os
progressos são lentos e localizados. Ainda assim, a
cidade de Lusaka, no Zâmbia, conseguiu reduzir as perdas
de 80 para 45% em seu sistema de distribuição.
Dacar melhorou o manejo dos recursos hídricos e criou
um sistema preventivo contra a poluição no Lago
de Guiers, seu principal reservatório. E, em Accra,
um plano feito pela comunidade local está reduzindo
a poluição no rio Densu.
Outro
grave problema é o aumento dos níveis de água
nos oceanos, supondo uma grave ameaça para as pequenas
nações insulares, países que se encontram
em baixa altitude, como Bangladesh e Holanda, e grandes cidades
como Nova York, Tóquio, Buenos Aires e Lagos, na Nigéria.
Os cientistas calculam que os níveis dos oceanos subirão
48 centímetros entre 1990 e 2100.
A
falta de acesso à água - para beber, para a
higiene e para a segurança alimentar - causa enormes
dificuldades a mais de um bilhão de membros da família
humana disse o Secretário-Geral da ONU, Kofi
Annan, no evento de lançamento do Ano Internacional
para Água Potável - 2003, em dezembro de 2002.
O objetivo deste Ano é chamar a atenção
da comunidade internacional para os problemas - inclusive
de sobrevivência da espécie - que o mundo enfrenta
em decorrência da perspectiva da falta deste recurso
precioso e finito, a água. É provável
que a água se torne cada vez mais uma fonte de tensão
e de uma feroz competição entre as nações;
se a atual tendência se mantiver, contudo, ela pode
ser também um catalisador da cooperação.
O Ano Internacional de Água Potável pode desempenhar
um papel essencial no que se refere a gerar a ação
necessária, tanto da parte dos governos como da sociedade
civil, das comunidades, do setor empresarial e dos próprios
indivíduos para este fim, declarou Kofi Annan.
Em setembro
de 2000, na Cúpula do Milênio das Nações
Unidas, foi acordado pelos líderes mundiais reduzir
pela metade, até 2015, a percentagem de pessoas que
não têm acesso à água, e na Cúpula
Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, também
de 2002, foi aprovada a meta correspondente para as pessoas
sem acesso a serviços de saneamento básico,
que hoje somam cerca de 2,5 bilhões. Destes, três
milhões de pessoas morrem por ano devido a doenças
ligadas à insalubridade.
Um fato
inédito marcará o Dia Mundial da Água
neste ano de 2003. Pela primeira vez, 23 agências e
secretarias de convenções das Nações
Unidas uniram esforços e especialidades para produzir
o World Water Development Report. Com quase 600 páginas,
diversos mapas mundiais, gráficos e estatísticas
nacionais, o relatório é o mais abrangente e
atualizado documento sobre o estado dos recursos de água
doce do mundo. Coordenado pelo Programa Mundial de Avaliação
da Água (World Water Assessment Programme - WWAP),
o relatório foi apresentado à imprensa no dia
5 de março em Tóquio, e será lançado
oficialmente por ocasião do Dia Mundial da Água,
22 de março, durante o III Fórum Mundial da
Água que acontecerá no Annex Hall, Kyoto International
Conference Hall. O relatório é um dos principais
resultados do Ano Internacional da Água Doce.
Devemos
nos conscientizar de que as águas não vão
acabar no planeta, e nem mesmo estão diminuindo em
seu volume de moléculas de H2O, porque este ciclo é
fechado e estável. A falta de cuidados adequados na
captação de chuvas e, conseqüentemente,
a poluição dos rios e dos lagos, é que
acabará reduzindo o volume de águas doces superficiais,
exigindo soluções de alto custo, como a busca
de águas subterrâneas profundas ou a dessalinização
de águas oceânicas.
Procure
lembrar de todo o significado cultural, simbólico e
sócio-econômico da água na próxima
vez em que você for saciar sua sede. O copo de água
que você segura nas mãos hoje, contém
mais de 10 milhões de moléculas que estiveram
em contato com os nossos ancestrais. Precisamos preservar
a água, pois ela representa um elo com o passado e
um compromisso com o futuro dessa e das próximas gerações.
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