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A hipótese
de trabalho, ou paradigma, para a prática da agricultura
convencional, chamada moderna, olha os fatores que influenciam
a produção, tais como solo, lavração
e preparo do solo, adubação, pragas e controle
de pragas, concorrência das ervas invasoras ou a seleção
genética das variedades cultivadas, etc., de maneira
meramente analítica ou educionista.
Cada fator
é encarado independentemente dos demais, como se ele
se encontrasse sozinho numa caixa ou gaveta fechada. Entre
as gavetas não há praticamente ligações.
O raciocínio é linear. Dentro de cada gaveta,
com poucas ou nenhuma ramificação lateral, quando
aparecem dificuldades, só se tratam sintomas.
Dentro
desta visão, na primeira gaveta, o solo é visto
quase como se fosse um mero substrato mecânico, que
apenas permite à planta ancorar-se para que o vento
não a possa levar e que serve também como veículo
para nutrientes minerais solúveis ou que facilmente
entram em solução.
Quando
a agronomia moderna analisa solo para a determinação
do tipo e quantidade de adubo a ser aplicado num determinado
plantio para a obtenção de uma produção
máxima, a análise é feita com métodos
que partem deste postulado. O fósforo, por exemplo,
é determinado lixiviando-se, isto é, lavando
a amostra de solo com um ácido suave e analisando o
lixiviado. Isto porque se pressupõe que a planta só
pode absorver o fósforo solúvel ou facilmente
solubilizável. É comum, então, que a
análise nos diga que um determinado solo é muito
pobre em fósforo quando, na realidade, ele pode ser
um solo até bastante rico em fósforo. Mas o
fósforo está presente em forma insolúvel.
É
claro que este tipo de política é muito boa
para aqueles que querem vender ao agricultor as formas caras
de fosfatos solúveis, tais como o superfosfato simples
ou triplo, ou mesmo os fosfatos complexos, quando, numa agricultura
sadia, com solos vivos, seriam suficientes os fosfatos naturais,
em foram de rocha moída simplesmente.
Na segunda
gaveta encontra-se a praga, todas aquelas criaturas que podem
causar estragos a nossos cultivos. Elas são vistas
como se fossem inimigos arbitrários, aparecem como
por milagre e têm condições de causar
estragos muito graves ou destruir completamente uma lavoura,
sempre que nela se conseguem instalar.
Supõe-se
que basta que esteja presente numa plantação
de batatas ou tomates a espécie certa de pulgão
e que ela vai então proliferar e continuar seu trabalho
nefasto até acabar com nossa colheita. O mesmo aconteceria
com os fungos, nematóides, ácaros ou qualquer
outro parasita. Nesta visão, as pragas são organismos
fundamentalmente ruins. Sempre que possível devem ser
"erradicados". Se não conseguimos exterminá-los,
temos que mantê-los afastados de nossos cultivos. As
aduanas de muitos países costumam confiscar e destruir
frutas ou qualquer material vegetal ou animal encontrados
na bagagem dos viajantes internacionais, pois poderiam estar
introduzindo alguma nova praga.
Uma vez
estabelecida a praga, supõe-se que a melhor maneira
de combatê-la é com venenos. Foi desenvolvido,
assim, todo um arsenal de biocidas fulminantes e persistentes,
os agrotóxicos: inseticidas, acaricidas, nematicidas,
fumigantes, fungicidas, bactericidas, até rodenticidas
e molusquicidas e outros pesticidas.
A palavra
pesticida expressa bem esta visão. Trata-se de matar
"pestes". Mais recentemente, diante da crescente
conscientização ecológica, a indústria
química, que fatura somas fabulosas com a produção
e venda de venenos, passou a não mais gostar do termo
pesticida e a promover o eufemismo "defensivo".
Já era comum também iludir o pobre agricultor
com a palavra "remédio". Por isso, no Brasil,
os agrônomos conscientes propuseram um termo mais de
acordo com a realidade - agrotóxico. Este termo está
hoje ancorado por lei.
Os venenos
são pulverizados sobre os plantios de maneira uniforme,
de preferência de avião. Até os novos
aviõezinhos ultraleves já são às
vezes usados para este fim. Para facilitar o trabalho do agricultor,
o fabricante de venenos prepara os chamados calendários
de aplicação, entre nós também
chamados de "pacotes tecnológicos". O agricultor
só precisa seguir a risca as instruções,
aplicar preventivamente o veneno no momento certo, sem ter
que constatar se há ou não incidência
de praga. Assim ele estará acabando com todos os bichos
indesejáveis. Em alguns cultivos, por exemplo, maçãs,
ele fará até 30 ou mais aplicações
por temporada. A coisa não é muito diferente
na parreira, no pêssego, no moranguinho, em hortaliças.
Mesmo depois da colheita ainda se aplicam venenos. No caso
da macieira, a maçã, quando entra no frigorífico,
é imersa num banho de fungicida. Depois passa por um
secador e recebe uma borrifada de cera para que o veneno fique
sobre a fruta.
O publicitário
que faz o lindo cartaz para induzir as pessoas a comerem estas
maçãs, opera em gaveta à parte. Ele nem
ouviu falar em toxicologia, para quê? O cartaz mostra
uma linda criança comendo a maçã, casca
e tudo...
O inço
ou erva invasora é visto numa terceira gaveta. Os inços
são considerados plantas que não deveriam de
existir. Eles competem com nossos cultivos, por água,
fertilizante, espaço, e eles poderiam abrigar pragas.
Enquanto não conseguirmos colocá-los na lista
das plantas em vias de extinção teremos que
combatê-los. Mais uma vez, existem instrumentos maravilhosos,
prontos para matá-los - os "mata-matos" ou
herbicidas, potentes fitocidas, eficientes e fáceis
de usar. Alguns deles matam tudo que é verde, outros,
dependendo do modo de aplicação, são
mais "seletivos", eles matam algumas espécies
e permitem que outras, nossas plantas cultivadas, se recuperem
de um choque inicial. Alguns são aplicados no solo
nu para evitar que germinem as sementes das ervas nativas,
outros matam as plantas por contato, ou matando apenas as
partes da planta que tocam, ou penetrando na seiva e matando
toda a planta. Os "desfolhantes" usados para destruir
milhões de hectares de selva no Vietnam e que também
foram usados em algumas fazendas na Amazônia, são
deste último tipo.
O alvo
é manter nu o solo entre as fileiras e debaixo das
plantas cultivadas. Houve uma época em que um campo
de trigo, na Europa, era algo muito lindo de ver - uma orgia
de flores. Nunca esquecerei o púrpura das papoulas.
Mais tarde os trigais se tornaram monótonos. Tudo o
que floresce era eliminado com veneno, até as flores
silvestres nas margens das lavouras e beiras de estradas.
O vôo irrequieto da borboleta tornou-se espetáculo
deveras raro. Os ambientalistas tiveram que comprar terras
para dar às ervas naturais - entre elas todas as ervas
medicinais - uma chance de sobrevivência. Felizmente,
hoje, 1997, verifica-se uma inversão. Conforme constatei
em minhas últimas viagens pela Europa, a crescente
conscientização ecológica, faz com que
na Alemanha já quase não mais se aplique herbicidas
nas margens das lavouras. As papoulas estão voltando.
Uma vez
que, como vimos na gaveta um, a função do solo
seria apenas ancorar as plantas e veicular nutrientes solúveis,
não importa, realmente, se ele está habitado
por seres vivos - por minhocas, artrópodos e outros
animaizinhos, especialmente colêmbolas e protozoários
ou por fungos, algas, bactérias. Portanto, não
precisariamos nos preocupar com os efeitos que os adubos solúveis
e as enxurradas de venenos possam vir a ter sobre todo este
complexo de vida. Já que todos estes seres parecem
mais incomodação que vantagem aparente, porque
não matá-los todos de uma vez?
Também
nunca esquecerei, quando ainda estava no negócio da
agroquímica - sim, sou tecnocrata dissidente - uma
vez veio a dar em minha mesa um folheto técnico, de
nosso departamento de pesquisa, que recomendava, imaginem,
heptacloro para eliminar minhocas! De tal maneira foram doutrinados
alguns agricultores que já me aconteceu receber consultas
sobre como eliminar "ecologicamente", sem venenos,
minhocas em parreiras ou pomares... Me lembro ainda de ter
lido documentos técnicos de autoridades agrícolas
alemãs, que insistiam em que o húmus era totalmente
desnecessário na agricultura tropical, que bastavam
os fertilizantes sintéticos. De fato, o ideal da agricultura
moderna parece ser a hidroponia, isto é, cultivar as
plantas em substratos inertes, banhados em solução
de nutrientes solúveis. Muitas lavouras modernas com
seus solos mortos vêm a ser quase isto.
Por isso,
quando entregamos a um laboratório de análises
agronômicas uma amostra de composto ou biofertilizante
de biogás, eles nos fornecem uma simples análise
NPK, isto é, uma análise meramente elementar
que só procura determinar os elementos N, nitrogênio,
P, fósforo e K, potássio, raras vezes algo mais.
Eles não procuram nem ver a extremamente complexa e
ainda quase desconhecida bioquímica destes fertilizantes
vivos, fertilizantes que alimentam a vida do solo.
Olhemos
a próxima gaveta. Trata-se da gaveta que contém
os fatores genéticos. Os geneticistas que fazem a seleção
das novas variedades norteiam-se pelo critério da eficiência
máxima, isto é, produção máxima
por hectare. O que realmente conta é aquele quilo a
mais na colheita. É claro que também levam em
conta a estética. A maçã ou batata deve
ter aspecto atrativo na estante do supermercado.
Ainda
há a questão da seleção de variedades
resistentes às pragas - aparentemente uma ligação
desta gaveta com a gaveta número dois. Mas a resistência
ao ataque de parasitas é vista como apenas geneticamente
inerente à variedade. Não se procura ver relação
entre suscetibilidade da planta e o ambiente em que ela terá
que viver, a não ser o ambiente de nossas lavouras
modernas - solo morto, muita química.
É
por isso que as gigantescas corporações do negócio
dos agrotóxicos já compraram quase todas as
companhias de produção de sementes. Elas querem
monopolizar os bancos genéticos para controlar a seleção
de maneira a poder promover somente variedades que dão
resposta máxima a seus insumos químicos. O ideal
delas é um novo pacote: semente patenteada recoberta.
Esta escapa completamente do controle do agricultor, que foi
quem, no passado, por
seleção consciente ou empiricamente inconsciente,
criou a fantástica diversidade biológica dos
cultivos nas tradicionais culturas camponesas.
Querem
obrigar o agricultor a não mais produzir semente própria
para comprar, sempre de novo, semente peletizada, semente
que vem recoberta de adubo químico, de fungicida, de
inseticida, eventualmente outros cidas e, esta é a
parte mais importante, um herbicida total para o qual a respectiva
variedade da semente é resistente. Não mais
resistência a pragas, resistência ao agrotóxico..!
O paradigma
contém mais algumas gavetas. Mas trata-se de gavetas
que o especialista em assuntos agronômicos prefere não
olhar. Vejamos a gaveta ecologia. Somente à medida
que os ambientalistas fazem muito barulho por causa dos passarinhos
e peixes mortos eles aceitarão levar em conta efeito
letal mais seletivo para seus venenos, para só matar
parasitas sem, aparentemente, pisar a fauna silvestre. Sob
pressão, a indústria falará de "combate
integrado". Isto significa usar o veneno somente em caso
de emergência, nunca preventivamente, como no caso do
"calendário de aplicação" e
aplicar somente no momento certo do ciclo vital do parasita
para minimizar a quantidade e o número de aplicações
de venenos. Mas é claro que esta tática não
é do interesse deles, diminui as vendas, de modo que,
na prática, não passa de propaganda ou truque
para abrir mais mercado. Alguns anos atrás, os traficantes
de veneno conseguiram convencer uma secretaria estadual de
agricultura de que deveriam aplicar certos inseticidas sobre
todas as lavouras de algodão, por avião ou helicóptero,
após a colheita, sobre o restolho, para "erradicar"
o bicudo. Foram necessárias algumas ações
judiciais para evitar esta loucura. Mas a secretaria, pelo
que me consta, já tinha comprado os venenos. Não
houve perda de negócios para a indústria.
Podemos
mencionar mais uma gaveta, a justiça social. Mas esta
parece não interessar. Para que existem sociólogos
e politólogos? Não se deve invadir seara alheia.
O que interessa hoje é o agribusiness, pouco importa
àqueles que o promovem o número crescente de
agricultores obrigados a abandonar a terra.
Esta é,
em essência, se bem que apresentada de maneira bastante
simplificada, para melhor compreensão, a visão
reducionista dentro da qual é encarada a fitossanidade
na agricultura, dita moderna.
Fato interessante
na aplicação deste paradigma é que, à
medida que o aplicamos, transformamos os campos agrícolas
de maneira a tornar realidade o que diz o paradigma. Na maioria
de nossos campos agricolas o solo não passa de substrato
mecânico sem vida e as pragas se comportam como se fossem
inimigos arbitrários.
Mas uma
minoria crescente de agricultores e técnicos em agricultura
começam a ver as coisas desde uma perspectiva diferente.
Eles raciocinam não em termos reducionistas, mas holísticos.
Para eles tudo está ligado com tudo. Não conseguem
ver inimigo arbitrário no parasita.
Tampouco
querem exterminá-lo. A simples idéia de que
pudesse haver criaturas que merecem ser exterminadas os repugna.
Como qualquer iniciante em biologia e ecologia sabe, um processo
tão vetusto como é a Evolução
Orgânica, mais de três e meio bilhões de
anos, não pode produzir espécies erradas, que
nem deveriam existir.
Se os
parasitas realmente fossem como postula a indústria
em seus lindos folhetos e cartazes, graficamente perfeitos,
e em seus agressivos anúncios de TV, já não
haveria vida neste planeta. Não há espécie
vegetal ou animal que não tenha seus parasitas e eles
existem há milhões de anos. Todos teriam tido
tempo amplamente suficiente para exterminar seus hospedeiros
e se teriam acabado também. O grande processo vital
da Evolução Orgânica teria entrado em
colapso. Se isto não aconteceu é porque o parasita
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não tem condições de prosperar sobre
hospedeiro são. Ele só prospera sobre o que
está de alguma forma em situação marginal.
Em um ecossistema intacto, toda população, de
seja qual for a espécie, sempre tem seus indivíduos
doentes, fracos, feridos, desequilibrados. É em cima
destes indivíduos que o parasita prospera, sem jamais
exterminar toda a população da espécie
hospedeira. Ele é um dos crivos do mecanismo de seleção
natural, que tende a melhorar constantemente as espécies.
Os camponeses
tradicionais, com sua sabedoria ancestral, sabiam que a praga
não ataca a não ser as plantas que não
estão bem equilibradas. Por isso, eles procuravam obter
cultivos sãos através de um manejo adequado
do solo, o que incluia descanso da terra, compostagem de resíduos
vegetais e animais, adubação verde, adubação
foliar, cobertura morta, rotação de cultivos,
plantas companheiras e muitas outras práticas. Os agricultores
biológicos modernos, com os conhecimentos científicos
de hoje, obtém resultados muito melhores. Só
raras vezes eles combatem diretamente as pragas. Então,
eles têm à sua disposição uma série
de defensivos naturais, não tóxicos, tais como
cinza, talcos de rochas, extratos herbais, caldos biológicos
como soro de leite, chorume de biogás e outros inimigos
naturais.
Um perito
convencional confrontado com uma laranjeira ou um pessegueiro
atacados de cochonilha ou pulgão, ou por doença
fúngica, olha a árvore e procura determinar
qual a espécie do parasita. Então escolhe o
veneno que considera mais adequado e mais barato para livrar
a árvore de seus atacantes. Em geral o raciocínio
termina aí. Talvez ele se preocupe ainda com o tipo
de traje e proteção que os aplicadores devem
usar, porque tem havido muitas intoxicações
e mortes.
Já
o perito de visão ecológica olha também
para baixo. Ele examina o solo. Pergunta ao agricultor qual
a adubação que fez, quais os herbicidas que
usou, se usou agrotóxicos no ano anterior. Com uma
pá de corte ele levantará uma fatia de solo.
A estrutura ou falta de estrutura deste solo, os organismos
que nele constata ou deixa de constatar, tudo isto lhe diz
muito sobre o porquê do ataque de praga.
Uma vez,
observando ataque de pulgão em cítricas com
agrônomos convencionais, estes, irritados, me perguntavam
- mas porque você vive perguntando sobre o programa
de adubação, nós estamos falando de pulgão!
Logo descobri que o agricultor havia aplicado grandes quantidades
de esterco de galinha fresco. Aí estava a causa do
ataque de pulgão. Mais adiante veremos porque.
Na visão
convencional da fitossanidade, um dos fatores mais indicados
como propiciador do ataque de pragas é a monocultura.
O argumento é simples: quando confrontado com imensas
e maciças extensões de seu hospedeiro, o parasita,
quer se trate de animal, fungo, bactéria ou vírus,
e mesmo planta, como no caso da erva de passarinho, oronbache
ou cúscuta, faz uma verdadeira festa, o que não
seria possível se os indivíduos da planta hospedeira
estivessem dispersos, intercalados com muitas outras espécies,
como é o caso na floresta nativa.
Mas na
Natureza também ocorrem monoculturas, se bem que apenas
em condições ambientais extremas. Num lago que
recebe excesso de nutrientes - esgotos ou adubos lixiviados
das lavouras - ocorre uma situação chamada eutroficação:
uma só espécie de alga predomina sobre as demais
formas de vida vegetal e seus predadores não mais conseguem
mantê-la controlada. Enquanto ela dura, temos aí
uma monocultura sã. As chamadas marés vermelhas
são fenômenos desta natureza. No Ártico,
em ecossistemas de duna ou praia, em desertos, banhados, ocorrem
muitas vezes monoculturas de uma só espécie
vegetal. Em banhados de água salgada, por exemplo,
podem observar-se monoculturas desta ou daquela espécie,
elas se sucedem, mas quase não se misturam. Nunca observei
proliferação séria de parasitas nestas
monoculturas naturais. Quando algum parasita aparece, a incidência
é limitada a alguns indivíduos marginais da
população hospedeira.
Mas aqui
no Rio Grande do Sul temos enormes monoculturas de eucalipto,
algumas delas milhares de hectares em uma só peça.
Praticamente não se conhecem pragas nestes plantios.
O único parasita sério que conheço no
eucalipto em nosso Estado é a erva de passarinho. Ela
ataca variedades que gostam de solo bem drenado quando estas
se encontram plantadas em solo de nível freático
alto. Este é o caso dos grandes eucaliptos do Parque
da Redenção, em Porto Alegre. Em árvores
sadias, mesmo quando algum pássaro traz a semente da
erva, ela germina mas não consegue vingar. O problema
com a formiga cortadeira se limita às primeiras semanas,
enquanto as mudas recém transplantadas ainda estão
fracas.
Também
temos monoculturas igualmente grandes e extensas de acácia
negra. Nestas, a praga mais temida é o serrador, um
lindo escaravelho com grandes antenas. A fêmea, à
maneira de um castor, corta troncos e galhos de até
uma polegada de diâmetro e faz a postura na parte destacada,
morta, do galho. Pude observar que o ataque é seletivo.
Partes de um plantio são atacadas, outras não.
Parece haver correlação entre ataque e condição
de solo. Em áreas de solo muito úmido ou em
solos extremamente pobres e esgotados o serrador ataca, em
solos ricos, argilosos, bem drenados, não vi ataque.
Esta e outras observações contradizem frontalmente
o paradigma convencional. Portanto, a história deve
ser mais complicada. Se é verdade que a grande monocultura
é ecológica e socialmente indesejável,
é também verdade que podemos obter monoculturas
sãs, sem veneno. Parece que está envolvido um
fator de palatabilidade. Às vezes o parasita gosta
do hospedeiro, consegue proliferar, outras vezes não.
A imagem do parasita como inimigo arbitrário não
se aplica.
Em mais
de cinqüenta anos de diálogo intensivo com a Natureza,
fiz muitas observações deste tipo. Enquanto
escrevo estas linhas, de minha janela, estou observando uma
colônia de grandes lagartas cabeludas em um ficus. Elas
passam o dia dormindo na base do tronco. À tardinha,
em caravana, sobem para pastar. Mas elas só comem as
folhas dos galhos internos, de folhas fracas por falta de
sol, os galhos que a árvore acabaria perdendo mesmo
sem este ataque. Interessante é a preferência
por certo tipo de folhagem numa mesma árvore. Todos
os anos é assim. Há um outro postulado da fito-farmacologia
convencional que não pode estar sempre certo. Quando
combatemos parasitas com veneno, digamos que estamos combatendo
cochonilhas em laranjeiras com parathion, é comum aparecer
logo depois ataque violento de ácaros. Torna-se então
necessário recorrer a um acaricida. A explicação
proposta é de que o parathion, como inseticida de amplo
espectro, teria eliminado os inimigos naturais dos ácaros,
que teriam então chance de proliferar livremente. É
o velho postulado do inimigo arbitrário. Se não
mantivermos sob controle as populações dos organismos
parasitas, seja com veneno ou por predação natural,
eles vão atacar. Até a filosofia do combate
biológico muitas vezes é a mesma da guerra química.
Mas a
proliferação de ácaros também
pode ser desencadeada pelos carbamatos modernos que são
fungicidas e que certamente não matam seus inimigos
naturais. Além disso, os fungicidas modernos, muitas
vezes, parece que promovem exatamente os fungos que deveriam
eliminar. Em nossa região vitícola, quando foram
abandonados os tradicionais e baratos tratamentos a base de
cobre, cal e enxofre, em favor dos carbamatos caros, os viticultores
logo se viram numa situação em que, quanto mais
pulverizavam, mais tinham que pulverizar, em alguns casos
até 30 vezes por temporada. É como se o fungicida
tornasse a parreira mais palatável para o fungo. Certamente
vão surgir complicações bem piores com
a entrada dos ainda mais caros e mais perigosos fungicidas
sistêmicos.
Entre
os agricultores orgânicos é conhecimento geral
que o ataque de pragas tem a ver com o estado metabólico
da planta. A suscetibilidade ao ataque do parasita, portanto,
está primordialmente ligada à nutrição
da planta. Outros fatores, tais como concorrência dos
inços, interações positivas ou negativas
de plantas companheiras (alelopatia), condições
climáticas, etc., também influem. As condições
para a saúde da planta devem ser otimizadas para que
o ataque da praga seja minimizado. Um manejo adequado do solo
permite obter um cultivo livre de parasitas mesmo que ele
esteja rodeado de lavouras atacadas.
Para fins
de demonstração é fácil preparar
duas plantas em maceta ou canteiro, de tal modo que uma, em
solo equilibrado, se mantenha livre da praga, enquanto que
a outra, na terra desequilibrada, seja atacada. Quando a
praga ocorre, digamos pulgão em tomate, pode-se fazer
tocar as folhas das duas plantas. O pulgão não
vai da planta atacada para a outra. Mas se queremos ver ataque
na planta que até então estava sã, basta
dar-lhe uma boa dose de adubo nitrogenado solúvel,
especialmente se for adubo amoniacal.
Quais
serão os processos metabólicos envolvidos?
É
comum supor-se que a planta sã produz suas próprias
defesas contra a praga, que ela absorveria da microvida do
solo ou produziria ela mesma substâncias antagônicas
aos parasitas, seus próprios pesticidas, por assim
dizer, ou que ela teria meios mecânicos de defesa, cutícolas
mais duras ou pelos mais densos. Tudo isto deve influir. Mas,
parece que mais importante e de importância capital
é um fator bem mais simples:
Francis
Chaboussou, um pesquisador francês no INRA (Institut
National de la Recherche Agronomique), em seu livro propõe
a teoria da "Trofobiose" Em sua expressão
mais sucinta esta teoria diz que o parasita morre de fome
na planta sã! Um aparente paradoxo.
Parece
que os parasitas carecem do mecanismo enzimático que
lhes permitiria decompor proteínas em seus aminoácidos
constituintes. Este é um passo indispensável
quando um organismo se alimenta das proteínas de outro.
As proteínas estranhas não podem ser diretamente
aproveitadas, porque cada organismo tem suas proteínas
específicas. Com os aminoácidos obtidos na proteólise
novas proteínas são sintetizadas. É como
demolir uma casa, para, com os tijolos, telhas, cabos, canos,
fazer nova casa, porém diferente. Os parasitas seriam
parasitas por causa desta deficiência. Eles precisam
encontrar abundância de aminoácidos e demais
nutrientes na seiva - açucares, sais minerais e nucleótidos.
Estes últimos são as peças base, as letras,
por assim dizer, do código genético.
De acordo
com Chaboussou, os parasitas, quer se trate de insetos, ácaros,
nematóides, protozoários, fungos, bactérias
ou mesmo vírus, só podem proliferar em plantas
com desequilíbrio metabólico que leve a níveis
exagerados de nutrientes na seiva. Numa planta sã estes
níveis são baixos. Proteossíntese e proteólise
estão equilibradas. Logo que aparecem aminoácidos
e os demais nutrientes, eles são absorvidos pela proteossíntese
ou, quando a planta está em repouso, como é
o caso da hibernação ou estivação,
a planta cessa de produzir aminoácidos e nucleótidos,
também pára de levantar nutrientes minerais.
Numa planta assim, o fungo ou o pulgão não tem
vez, ele morre de fome ou seus sentidos lhe dizem que não
adianta instalar-se nesta planta.
Mas, como
acontecem os níveis exagerados de nutrientes? Ou por
inibição da proteossíntese os nutrientes
ficam sobrando, ou porque é exagerada a oferta. Também
pode haver excesso quando a proteólise predomina sobre
a proteossíntese. Este é o caso das folhas velhas.
Para que
ocorra congestão de aminoácidos, a inibição
da proteossíntese pode ser mínima. A planta
pode ainda estar crescendo vigorosamente e ter aspecto muito
sadio. Vejamos uma metáfora. Imaginemos uma autopista
com um fluxo de carros a l20 km/h. Aparece um estrangulamento
de três para duas vias. Dali para diante o fluxo retorna
a l20 km/h, mas dalí para trás surge um grande
congestionamento.
Chaboussou
mostra que muitos dos modernos agrotóxicos inibem proteossíntese.
A maioria deles é até certo ponto sistêmica,
quer dizer, penetra na seiva da planta. Eles terão,
portanto, algum efeito, positivo ou negativo. Como se trata
de biocidas, é provável que predominem os efeitos
negativos. Esta deve ser a razão porque, à medida
que aumenta o uso dos agrotóxicos, aumenta a incidência
e o número de pragas. Não se trataria só
da eliminação dos predadores dos parasitas,
mas de aumento de suscetibilidade das plantas cultivadas.
Muitos dos casos em que pensamos que houve aparecimento de
resistência da praga ao agrotóxico são
na realidade casos de aumento de suscetibilidade da planta,
especialmente no caso de doenças fúngicas. É
por isso que Chaboussou deu à primeira edição
de seu livro o título "As plantas que adoecem
dos pesticidas".
A taxa
de proteossíntese depende, fundamentalmente, de uma
nutrição equilibrada. Mas, da maneira como alimentamos
nossos cultivos nas lavouras modernas, torna-se quase impossível
encontrar plantas equilibradas. Aplicamos fertilizantes solúveis,
em forma de sais concentrados, de acordo com fórmulas
empíricas, baseadas em análises que muitas vezes
não têm sentido. A aplicação é
feita toda de uma vez, em geral no sulco, junto com a semente,
raramente dividida em duas ou mais aplicações,
sendo as posteriores de cobertura ou de aplicação
foliar. Assim é impossível evitar que a planta
absorva demais num momento e passe fome mais adiante, quando
a chuva lixiviou ou a química do solo fixou os elementos
que estavam solúveis. Este é quase sempre o
caso do fósforo. A planta também receberá
demais de um elemento enquanto sofrerá deficiência
de outro. Nem precisamos aqui entrar na problemática
dos antagonismos entre os diferentes nutrientes que entram
em jogo quando eles estão maciçamente disponíveis.
Mais sério
é o problema dos micronutrientes. A proteossíntese
parece ser muito sensível a deficiências em micronutrientes.
Quando degradamos a estrutura do solo pela excessiva agressão
mecânica, causamos erosão e perda de húmus,
destruimos a vida do solo pela agressão química
e eliminamos o alimento da microvida do solo, não mais
aportando matéria orgânica porque eliminamos
a rotação de cultivos, compostagem, adubação
verde. O que podemos esperar? Num solo morto a planta sempre
encontra dificuldades para levantar
micronutrientes.
Aqui convém
mencionar um dos fatores mais importantes para a saúde
das plantas. Um fator que a fitossanidade na agronomia moderna
praticamente não leva em conta: a micorriza.
A maioria
das plantas vive em simbiose com outros organismos no solo.
A ponta da raiz capilar, a última extensão da
raiz, já quase microscópica em diâmetro,
exuda uma substância gelatinosa, chamada mucigel, com
a qual se recobre como se fosse uma luva. Nesta capa constituída
de alimentos energéticos, açucares e amidos,
instalam-se bactérias especiais, muitas
vezes específicas das respectivas plantas. Além
disso, esta capa e o próprio tecido da raiz são
atravessados por filamentos, os hifens do micélio de
certos fungos, também quase sempre específicos.
Estes filamentos se extendem até vários metros
além da ponta da raiz e podem unir-se com o micélio
que serve à planta vizinha da mesma espécie.
Esta simbiose tripartita - planta,
bactéria e fungo, a que damos o nome micorriza, consegue
retirar nutrientes minerais até da estrutura cristalina
da rocha, isto é de cacos de pedra e grãos de
areia ou de concreções minerais. Mas a micorriza
só funciona em solo vivo, rico em húmus. Não
mais precisamos entrar em detalhe sobre como os métodos
da agricultura moderna destroem a micorriza - em proveito
da industria química...
Outra
simbiose importante é o rizóbio. As leguminosas
albergam em nódulos especiais que produzem em suas
raízes determinadas bactérias que fixam para
elas nitrogénio do ar, fazendo gratuitamente, em temperatura
de ambiente e em pressão atmosférica o que a
indústria química, no processo Haber-Bosch só
consegue fazer em altas temperaturas e tremendas pressões
e com enorme custo de energia.
No verão
de l982, depois de mais de dez anos de ausência, visitei
os vinhedos do Palatinado na Alemanha. Grandes manchas de
parreiral estavam amarelas como enxofre.Tratava-se de uma
deficiência chamada clorose, uma espécie de anemia
da planta devida à dificuldade em absorver ferro. Mas
não falta ferro no solo. A dificuldade provém
dos modernos métodos agrícolas. Os
vinhedos estavam altamente mecanizados, os solos compactados
pelo peso das máquinas. Doses elevadas de adubos solúveis
e as enxurradas de venenos acabaram com a vida do solo. A
indústria química, causadora deste problema,
veio logo oferecer uma nova "solução",
aplicação foliar de um quelato de ferro. Assim,
em vez de penitenciar-se de seus erros, ela consegue fazer
ainda mais negócios.
Quanto
ao aumento na produção de aminoácidos
na planta, basta olhar as pesadas aplicações
de adubos nitrogenados solúveis, especialmente os derivados
do amoníaco - sulfato de amônio, uréia,
nitrato de amônio e outros. O efeito é o mesmo
quando o amoníaco é de origem orgânica.
A aplicação de esterco fresco de galinha é
causa quase imediata de ataque de pragas. O alto conteúdo
de nitrogênio está em forma de ácido úrico
que logo libera amoníaco no solo.
A teoria
de Chaboussou também explica porque numa mesma planta
às vezes apenas algumas folhas, em geral as mais velhas,
são atacadas, outras não. Numa planta de abóbora
ou pepino é comum ver-se forte ataque de mildiú
nas folhas velhas, enquanto que o resto da planta está
limpo. Estas são as folhas que estão sendo drenadas
de seus nutrientes para serem levados às
folhas novas, nelas a proteólise predomina sobre a
proteossíntese.
Naturalmente
a coisa é mais complexa, não estão em
jogo apenas os aminoácidos, mas como já vimos
acima, também os açúcares, que são
os repositório de energia da célula, sem a qual
a proteossíntese não pode funcionar. O mesmo
se aplica aos nutrientes minerais. A proteossíntese
funciona quando todos os ingredientes necessários estiverem
presentes. Quando houver estrangulamento de qualquer um deles,
ela se inibe. Isto causa congestionamento dos demais na seiva,
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a seiva se torna mais nutritiva para o parasita. Por isso,
a praga só vinga em planta desequilibrada.
A teoria
de Chaboussou tem a grande vantagem de ser facilmente verificável
ou refutável a campo e em laboratório. Por que
ela continua ignorada?
Para mim,
além do diálogo direto com a natureza, a maior
prova de que ela deve ter muito de verdade é como a
indústria química se recusa solenemente de dela
tomar conhecimento. Há mais de dez anos alertei os
departamentos de pesquisas de duas grandes transnacionais
dos agrotóxicos, só diziam que não tiveram
tempo de ler o livro de Chaboussou... Para eles nada seria
mais fácil do que refutá-lo, se for possível.
Em correspondência recente, de um ano para cá,
com o IVA, que é o lobby dos agrotóxicos e adubos
químicios na Alemanha não consigo que me respondam
perguntas concretas quanto à posição
deles diante dos ensinamentos de Chaboussou.
Se a teoria
da Trofobiose é correta, e tudo parece indicar que
é, então nos encontramos diante de uma importante
revolução na agronomia, uma revolução
que me parece tão importante quanto foi a revolução
desencadeada por Liebig no século passado. Devemos
fazer o possível para que esta não seja deturpada
como foi aquela! Felizmente temos hoje uma constelação
diferente.
José
A. Lutzenberger Dezembro 1983
revisado
e ampliado Julho 1997
Original
em língua inglesa publicado na revista
THE ECOLOGIST
Journal of the Post
Industrial Age. Vol. 14
Número 2, 1984.
Nota:
Em seu livro
AN AGRICULTURAL
TESTAMENT
Sir Albert Howard
Geoffrey Cumberlege
Oxford University Press\ first edition 1940
Sir Albert
Howard já relata como - 50 ANOS ATRÁS - a prática
agrícola demonstrava o absurdo do paradigma fitossanitário
da época, que já era o atual. De grande interesse,
interesse ATUAL neste livro são os capítulos
sobre a saúde dos cultivos, especialmente a relação
enfermidade ou praga e húmus, a micorriza e o manejo
do solo. De grande atualidade, também é o capítulo
sobre o esquema de pesquisa da época. Parece que estão
falando da EMBRAPA de hoje.
Interessante,
este e outros livros estão nas bibliotecas das escolas
de agronomia - os "cientistas" atuais acham poder
desprezá-los.
Em 1979
foi publicada uma nova edição da tradução
do alemão deste livro:
Mein
landwirtschaftliches Testament
Sir Albert Howard
Edition Siebeneicher
Volkswirtschaftlicher Verlag-Múnchen
Quem sabe,
alguns agrônomos jovens, outros jovens de espírito,
conseguirão achar o tempo para debruçar-se sobre
este livro, e, lendo-o com atenção, aprenderão,
também, o diálogo direto com a Natureza e com
a sabedoria dos antigos.
(A edição
em português "Plantas Doentes Pelo Uso de Agrotóxicos
(A Teoria da Trofobiose)" foi publicada pela editora
LP&M.)
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