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O principal
comentário que tenho a fazer é de fundo, não
visando pessoas ou instituições específicas,
mas tentando trazer contribuição geral.
Não
discuto aqui questões operacionais quanto aos procedimentos
e prazos previstos pelo contratado Instituto Manoel Novaes
(IMAN) para a eleição do Comitê ainda
este ano, conforme Plano de Trabalho acertado no convênio
com a Agencia Nacional de Águas (ANA), decisões
do comitê provisório e diretriz reafirmada pelo
Ministro José Carlos de Carvalho. Cumprir as metas
do Plano de Trabalho concentrando e enxugando o quadro de
reuniões dos segmentos, ainda que prolongando a duração
de cada uma, são aspectos importantes para eleger,
no tempo previsto, o futuro Comitê com a maior representatividade
e qualidade possíveis - que é o que se espera
da nossa diretoria provisória, da ANA e do IMAN. A
questão que me preocupa está nas conseqüências,
a médio e longo prazos, da consciência do grupo
do Comitê Provisório do que seja a revitalização
da bacia hidrográfica do Rio São Francisco.
O conceito
de revitalização e gestão das águas
vai bem além e não pode estar subordinado à
operacionalização de gerenciamento de recursos
hídricos, conforme tendência verificada recentemente,
quando se quis discutir transposição das águas
do São Francisco, divorciando-a da questão da
revitalização. Subjacentemente aos argumentos
que ouço em discussões na diretoria provisória,
posso perceber uma fratura conceitual entre o velho e o novo
paradigma, que poderíamos definir caricaturalmente
como pragmatismo versus ambientalismo. Isto poderá
se refletir no curso da atual mobilização para
eleger o Comitê do São Francisco. É conveniente
que os mobilizadores e coordenadores das sub-bacias, bem como
os Comitês, estejam atentos quanto a este ponto para
que os delegados, à assembléia final de eleição
do Comitê, venham com esta contradição
conceitual digerida e resolvida.
Nossa
sociedade precisa superar seus preconceitos. Persistem no
interior da organização dos Comitês de
bacia e nas interpretações da Lei nº 9433/97,
arraigados preconceitos alimentados por duas vertentes: a
vertente produtivista, compreendendo pequenos e grandes empreendimentos,
e cujo modelo levou à exaustão ambiental atual,
mostrando que desenvolvimento sem sustentabilidade é
suicídio nacional; e a vertente ambientalista, que
surgiu no rastro da degradação ambiental justificada
por finalidades econômicas, acabando por desenvolver
posicionamentos inicialmente radicais contra o modelo de desenvolvimento
preponderante até os dias atuais, creditando a ele
vícios insuperáveis. Evidentemente que, embora
persistindo, lado a lado, descabidos preconceitos, a sociedade
tem evoluído bastante na compreensão e equacionamento
das relações sociais geradoras da crise ambiental.
Assim, desenvolvimento, preservação e conservação
aprendem o caminho da sustentabilidade. É o único
caminho que atende às necessidades humanas e de nossa
interdependência com todo o conjunto ambiental de solo,
flora e fauna e cuja reprodução integrada constitui
a possibilidade da vida no planeta Terra.
Reduzir
o alcance histórico deste momento de criação
do Comitê, criando-o como um mero administrador de recursos
hídricos, em sentido restritivo e sem respaldo ambiental,
sem o imaginário dos rios vivos, é regredir.
Por mais importante que seja a busca de um gerenciamento compartilhado,
não se trata apenas de constituir um Comitê do
São Francisco para administrar conflitos de usos e
de interesses econômicos, como parece óbvio aos
pragmáticos produtivistas. Não se trata somente
de construir um Comitê do São Francisco para
administrar recursos hídricos escassos e poluídos,
necessários às hidrelétricas, à
irrigação de escala, ao abastecimento urbano,
às indústrias diversas, à navegação
e a outros fins. São funções importantes
e, sem dúvida, constituem progresso; entretanto, apresentam-se
insuficientes, não garantindo a sustentabilidade do
desenvolvimento econômico, da bacia hidrográfica,
das pessoas. Não se trata tampouco de proferir um discurso
fransciscano, com religiosidade para consumo da população
de baixa renda, mas que visa a integrar os pequeninos produtores
e os pobres desvalidos num concerto de decisões dominado
pelos grandes, dentro ainda do velho paradigma de desrespeito
às possibilidades de sustentação ambiental
do desenvolvimento. Nestas condições, o discurso
do barranqueiro do São Francisco, saudoso dos peixes
e da navegação nas gaiolas, não passaria
de saudosismo inútil e mistificador da realidade atual.
A fratura
conceitual entre, de um lado, o pragmatismo utilitarista de
recursos hídricos e, de outro, o ambientalismo desprovido
de preocupações com o desenvolvimento, não
é mais admissível nesta altura da história.
A gestão integrada e compartilhada da bacia hidrográfica
é vista hoje como método essencial para o desenvolvimento
econômico, social e ambiental com sustentabilidade.
Mas a sustentabilidade do desenvolvimento em relação
ao meio ambiente não se refere simplesmente à
possibilidade de um gerenciamento competente, às cobranças
pelo uso da água e outras providências político-administrativas.
Trata-se de algo muitíssimo superior, que é
compatibilizar o desenvolvimento econômico com o meio
ambiente e a vida. A preservação e a conservação
dos ecossistemas e das suas biodiversidades é inseparável,
em razão da fisiologia do planeta Terra, da possibilidade
de termos água em abundância e qualidade para
todos os usos e para sempre.
Não
há nenhuma incompatibilidade conceitual entre a preservação
e a conservação dos ecossistemas naturais e
da sua biodiversidade com a preocupação relativa
ao aumento da qualidade e quantidade das águas enquanto
insumo para a produção, como pareceu-me ser
a compreensão de alguns colegas do Comitê Provisório.
Pelo contrário, o modelo da fratura conceitual, que
separa recursos hídricos do meio ambiente, que separa
a água da vida na Terra, é absolutamente insustentável.
E não dá para transigir com esta questão
se quisermos seriamente construir um Comitê para a gestão
integrada e compartilhada para o desenvolvimento com sustentabilidade
econômica, social e ambiental da bacia hidrográfica
do Rio São Francisco.
O ciclo
hidrológico que nos traz abundante água doce
e a recarga dos aqüíferos na maior parte do território
nacional está se frustrando pelo desmatamento generalizado,
ausência de manejo inteligente do solo, pelos processos
impermeabilizantes da construção urbana e de
suas exigências de matéria prima e energia retiradas
alhures, pelas canalizações de córregos
e retificação de cursos de rios, ações
que estão gerando assoreamento, enchentes, excessiva
drenagem e secas. Também as águas envenenadas
por agrotóxicos, efluentes orgânicos e químicos,
e lixo urbano, transformam os nossos rios em estuários
não da vida, mas da morte, semeando fome, doenças
e escassez.
Não
há como fazer a gestão das águas como
se fosse mero gerenciamento empresarial e administrativo de
recursos hídricos, de massas dágua, de
caixas dágua. A gestão incorpora toda
a sociedade, a educação ambiental, as paixões
para soerguer o nosso país, um novo imaginário
de vida, solidariedade e cidadania. E por falar em vida, aí
entra a fauna, a flora, o peixe. E aqui falo com a autoridade
dos antigos profetas: se não formos capazes de saber
escutar a voz dos peixes, através da qual falam as
futuras gerações, voz que, em última
instância, sintetiza o nosso compromisso com a vida
no planeta Terra e seus sistemas de reprodução
da vida, não seremos capazes de sustentar o nosso desenvolvimento
a médio e longo prazos, nem de assegurar a possibilidade
dos múltiplos usos dos espaços disponíveis
para as diversas atividades atuais e futuras, nem de termos
águas abundantes e de qualidade, e até mesmo
de conservar a nossa saúde física e mental.
O ser humano não sobrevive à destruição
da flora e da fauna, pois depende integralmente do meio ambiente
para sobreviver, para se alimentar e respirar. A voz dos peixes
simboliza os bioindicadores dos corpos dágua,
que monitoram a integralidade do sistema ambiental terrestre
e aéreo. Em sentido metafórico, a água
representa o sangue da Terra e eixo sistêmico do conjunto
do meio ambiente. A voz dos peixes é a voz contemporânea
da razão, e das futuras gerações. A linguagem
do Comitê e dos mobilizadores deve ser esta, se quisermos
servir ao nosso povo e ao nosso país e não apenas
às exigências do mercado e dos interesses internacionalmente
hegemônicos.
Sem um
imaginário social definido com coerência, no
caso rios vivos, não haverá mobilização
séria, com direção, coesão e continuidade.
Prevaleceria a tendência à fragmentação
gerada pelos interesses setoriais e egoístas, e não
o resultado sonhado pelo conjunto da sociedade. Na metodologia
dos rios vivos, os indicadores biológicos dos corpos
dágua monitoram não só a recuperação
ambiental das águas como do manejo de solo e da vida
terrestre e aérea e, sobretudo, a transformação
da mentalidade civilizatória dos habitantes da respectiva
bacia.
O novo
imaginário ressalta o limite da visão municipalista
que estimula as disputas partidárias interpares em
detrimento da solidariedade necessária à gestão
das águas; que condiciona uma estratégia de
intervenções e omissões na bacia priorizando
interesses eleitorais e empresariais em detrimento da análise
dos impactos positivos e negativos sobre o conjunto da bacia
de rios vivos.
Na mesma
lógica de bacia não tem sentido agir como se
fizéssemos gestão das águas da calha
principal do rio, intervindo em suas margens e povoando estas
águas com alevinos da Chesf. Isto é inverter
a ordem natural do caminho das águas, e da necessidade
da gestão ambiental na íntegra do território
da bacia que produz essa água. Cessando a agressão
ao rio e iniciada a recuperação ambiental do
território da bacia, o peixe voltará, com a
ajuda de escadas naturalizadas nas barragens, sobretudo das
hidrelétricas e, quem sabe, com a complementação
desses alevinos. As medidas compensatórias da parte
destes empreendimentos impactantes devem ser aplicadas apenas
na recuperação dos danos ambientais causados
à bacia. O desmatamento feroz e a ausência de
racionalidade ambiental no manejo de solo urbano e rural têm
causado grandes prejuízos às barragens que são
engolidas em algumas décadas por assoreamento de dimensões
catastróficas e prejuízos inaceitáveis
aos cofres públicos.
Na lógica
de bacia não tem cabimento recortes territoriais arbitrários
do tipo das tradicionais divisões administrativas que
ficaram célebres no mapa da África com a divisão
territorial feita pelo colonialismo. As bacias obedecem a
uma anatomia ambiental natural. Isto é fundamental
na gestão e recuperação das bacias hidrográficas,
que precisam ser vistas como organismos de corpo inteiro,
unidade na diversidade. Neste sentido a aplicação
dos recursos financeiros nas bacias elementares e no conjunto
da bacia, deveriam necessariamente obedecer a uma lógica
de intervenção que priorizasse não este
ou aquele município, este ou aquele estado da federação,
por razões da política tradicional que já
tem feito tanto mal ao nosso país, mas a recuperação
do conjunto. Cito o exemplo do Rio das Velhas, maior afluente
do Rio São Francisco, maior população,
maior PIB, maior região metropolitana e maior poluidor.
Se em vez de aplicarmos as verbas de recuperação,
esquartejando-as democraticamente pelos 51 municípios,
resolvermos nos concentrar, num primeiro momento, na solução
da questão do tratamento dos esgotos da região
metropolitana, o Velhas sai do CTI, cessarão as mortandades
anuais de peixes, todos os municípios a jusante terão
melhor qualidade de água para os diversos usos e os
peixes voltarão. A outra prioridade seria garantir
de forma rigorosíssima a preservação
do Rio Cipó, onde está a maior riqueza ictiofaunística
da bacia do Velhas. Uma e outra ação permitirão
realizar o imaginário do Rio das Velhas vivo. O Projeto
Manuelzão que assim trabalha, está presente
em toda a bacia, das nascentes mais remotas até a foz
no São Francisco, realizando uma série de ações
de recuperação ambiental, pois é necessário
estar presente no conjunto da bacia. Quando se fala em prioridades
estratégicas para a bacia, isto significa atender a
todos os municípios do território, da única
forma inteligente e com os menores custos. De pouco adianta
uma prefeitura do médio Velhas priorizar o tratamento
de seu esgoto lançado hoje diretamente no Velhas, se
seu município recebe todos os esgotos domésticos
e industriais da maior região metropolitana da bacia
do São Francisco sem nenhum tratamento prévio.
No caso de Belo Horizonte isto está mudando com as
intervenções da Copasa construindo as Estações
de Tratamento de Esgotos (ETEs) do Arrudas e do Onça.
É uma grande intervenção pela recuperação
da bacia do São Francisco.
Somos
muitos e diversificados, representamos interesses diversos,
interesses presentes e futuros, somos pobres e ricos, mas
precisamos ter uma coisa em comum, um mobilizador para toda
a sociedade, que unifique nossa mobilização,
que seja um produto comum a todos: que sejam rios vivos, bacias
hidrográficas vivas e abundantes, compatibilizando
desenvolvimento e meio ambiente.
Fonte:
Textos
elaborados pelo Professor Apolo Heringer Lisboa ao longo dos
trabalhos da Diretoria Provisória do Comitê da
Bacia Hidrográfica do Rio São FranciscoBelo
Horizonte, 03/04/2002
COMENTÁRIOS
SOBRE A CRIAÇÃO DO COMITÊ DE BACIA HIDROGRÁGICA
DO RIO SÃO FRANCISCO EM 2002.
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edil;ÕES
SOBRE A REUNIÃO DA DIRETORIA PROVISÓRIA REALIZADA
EM O1/O4/2002
Apolo
Heringer Lisboa* é
professor da Faculdade de Medicina da UFMG, escritor e ambientalista
coordenador do Projeto Manuelzão, MG. Foi fundador
do PT, ex-dirigente da UNE e exilado é representante
da Sociedade Civil na Diretoria provisória do Comitê
da Bacia do São Francisco -.
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