| O
papel do limite na educação dos filhos
Introdução
Certamente
as crianças de hoje não conseguem imaginar como
os seus avós viviam sem fax, telefones celulares, Internet.
Os recursos tecnológicos e os canais de comunicação
mostram extraordinárias transformações,
mas grande parte dos dilemas e queixas entre as gerações
permanecem. Quartos desorganizados, objetos deixados por toda
a casa, brigas entre irmãos, desobediência, são
queixas apontadas pelos pais pelo menos há três
décadas.
É
freqüente ouvir os pais comentarem que os filhos saem
de casa nos dias de hoje no horário em que eles estavam
chegando. Muitos pais ficam indignados quando os amigos dos
filhos invadem sua casa sem sequer cumprimentar.
Os professores
por sua vez queixam-se da indisciplina, das notas baixas,
do desinteresse pelas aulas.
Muitos
ainda jogam lixo pelas ruas, deixam banheiros imundos, não
sabem regular o alimento, deixando sobrar comida nos pratos.
Na classe
média instalou-se um forte consumismo e os adolescentes
só se sentem aceitos no seu grupo de referência
quando vestem roupas de marca, compram o tênis do momento.
Com a
entrada da mulher no mercado de trabalho, os filhos ficam
cada vez mais sozinhos e os pais tentam suprir a ausência
com presentes, objetos cujo preço não se justifica.
Diante destes dilemas, muitos se sentem perdidos, culpados,
impotentes, desamparados, irritados, agressivos.
Dificilmente
conseguem manter um diálogo esclarecedor em ambiente
de respeito e equilíbrio.
Conflitos
se instalam, cresce o número de casamentos desfeitos.
A procura de psicólogos sinaliza muitas vezes a dificuldade
dos pais em assumir a responsabilidade de tratar os problemas
diretamente com os filhos, buscando ajuda de especialistas.
Realidades
sobre a criação dos filhos.
Longe
de se tratar de um problema simples, passível de solução
mágica, a educação dos filhos é
um desafio cujas bases são culturais. Os pais precisam
admitir que também são humanos e os seus recursos
emocionais são limitados. As dificuldades e as crises
familiares são inevitáveis. Se os filhos vêem
os pais discutindo, mas resolvendo os problemas, podem aprender
uma importante lição. As pequenas insatisfações
podem ajudar a aprender a lidar com outras maiores que a vida
certamente trará.
Por se
tratar de uma questão complexa, alguns aspectos parecem
particularmente importantes e merecem ser destacados.
Por razões
variadas, alguns pais abrem mão de sua autoridade,
quer por temer o rótulo de "careta", quer
por acreditar que as crianças não podem ser
tolhidas nas suas reações para se tornarem adultos
livres, sem traumas. Tornam-se permissivos, não colocam
limites, aceitam inclusive, chutes, gritos, tratamento grosseiro.
Estas crianças vão se tornam irritadas, agressivas.
Embora os pais acreditem que encontrarão o próprio
rumo, o que mais se observa é que estas crianças
se tornam isoladas, contam com poucos amigos, tornam-se indesejadas
pelos familiares que fazem tudo para evitarem o contato com
elas.
Quando
adultos muitos se mostram indecisos, inseguros, incapazes
de persistir e lidam muito mal com perdas e frustrações.
Outros
pais acreditam que os problemas se resolvem por si mesmos.
Parecem não enxergar o que se passa, fazem comentários
simplistas, não se posicionam diante das situações
críticas. Os filhos sentem-se inseguros, perdidos,
com grande dificuldade para tomar decisão. Aprendem
a manipular, mentir, como forma de obter aquilo que desejam.
Existem
ainda os pais reprovadores e ásperos que além
de pouca manifestação de afeto cobram aquilo
que foge da sua expectativa, mas são incapazes do reconhecimento
e do elogio. Estas crianças acabam por apresentar baixa
estima, sentem-se culpadas, buscam esconder o medo dos desafios
ora mostrando conduta obediente e passiva, ora rebelando-se
e mostrando explosões emocionais sem motivo aparente.
O grande
desafio está mesmo em estabelecer um estilo de convivência
que permita explicar os fatos com carinho, colocar limites
sem violência. Aprender a focar os problemas, sem agredir
a personalidade do filho e a reprimir as ações,
os comportamentos indesejados e não as emoções.
Sabem que os filhos têm todo o direito de expressar
a irritação, o medo e raiva, mas nem por isto
podem bater, atirar ou quebrar objetos quando estão
furiosos.
Os filhos
precisam aprender que podem ter raiva, mas não precisam
odiar a pessoa ou fazer comentários maldosos.
Reprimir
a ação implica não censurar os sentimentos.
Um irmão pode sentir raiva do outro, mas os adultos
não podem permitir que se agridam fisicamente, briguem
de forma violenta.
Sentimentos
e desejos são legítimos e aceitáveis,
mas muitos comportamentos não podem ser aceitos nem
estimulados.
Estas
crianças aprendem se aclamar, concentrar-se no problema,
recuperar-se das frustrações. O diálogo
e o limite ajudam a passar o desconforto, o mal estar, a agonia.
Nas relações
diárias onde os limites ajudam a ampliar o auto conhecimento,
a autocrítica, estimulando a criança a saber
como é percebido e especialmente a expressar os seus
sentimentos.
Uma
prática essencial
Os pais
podem ajudar na expansão do auto conhecimento, substituindo
a freqüente tendência a censurar ou desconhecer,
pela postura de esclarecer os fatos e as situações
ampliando o hábito de perguntar:
- O
que aconteceu?
- Quando
foi isto?
- Quem
o magoou?
- Você
está triste?
Perguntas
como estas ajudam o filho a entender o seu estado emocional
e criam clima para uma conversa aberta e não avaliativa.
Ao ajudar
a admitir e nomear a emoção, os pais instalam
o processo de orientar o filho a regular as emoções
e muitas vezes nem se torna necessária à colocação
de limites, uma vez que podem ser estabelecidos compromissos
negociados.
Caso os
pais constatem que exageraram nos limites, podem pedir desculpas,
explicar as razões:
- Sempre
que estou tenso, tendo a exagerar. Peço que me desculpe.
Estou disposto a me controlar para não agir assim em
momentos de tensão e descontrole".
Este comentário
destaca a inconveniência de se colocar limites:
- com
raiva,
- com
pressa,
- nos
momentos de cansaço,
- na
presença de terceiros.
Momentos
de fortes emoções pedem equilíbrio. Os
pais podem aprender o auto controle e mesmo experimentando
raiva podem evitar bater, fazer ameaças que depois
não conseguem cumprir, tomar cuidado para não
expressar desprezo, usar de ironia ou sarcasmo.
Os pais
precisam conhecer e acolher os amigos dos filhos. Só
assim podem saber com quem eles andam, de quem gostam. Conhecendo
os amigos podem mapear as preferências e estar atentos
às influências dos amigos nos comportamentos
e atitudes dos seus filhos.
Cada vez
mais fica evidente a necessidade de se estabelecer uma rede
de apoio emocional aos filhos. Parentes e pessoas significativas
podem ajudar os nossos filhos em situações difíceis,
momentos de perdas e conflitos. Se o filho está triste
e não mostra disposição para conversar,
é importante que os pais o estimulem, sugerindo que
se abram com alguém. Nestes momentos não vale
o egoísmo de querer que o filho só tenha como
amigo ou confidente o pai ou a mãe. Um amigo, um vizinho,
tio ou tia pode ajudar, escutando e orientando. Cada situação
pode requerer um tipo de interlocutor e é saudável
que o filho escolha pessoas de confiança com quem se
sintam seguros para expressar seus sentimentos e buscar apoio
emocional em situações difíceis.
A
construção de dias melhores para pais e filhos
Raízes
da auto estima.
Auto estima
pode ser conceituada como a experiência de ser competente
para lidar com os desafios básicos da vida e de sentir-se
merecedor de felicidade. É a confiança em na
própria capacidade de aprender, tomar decisões,
fazer escolhas apropriadas na vida. Alguns pontos são
essenciais para construir a auto estima:
Viver
conscientemente: Os pais devem estar atentos à necessidade
de aturarem de modo a mostrar para os filhos que respeitam
os fatos, são abertos ao feed back, ou seja, á
prática de ouvir críticas e refletir sobre elas.
Assim despertam os filhos para a importância de compreender
não apenas o mundo à sua volta, mas também
nosso mundo interior, despertando para a necessidade da determinação
para enfrentar a realidade, ainda que seja desagradável.
A auto aceitação:
É
a disposição para admitir, experimentar a assumir
a responsabilidade por pensamentos, sentimentos e ações,
sem fugir, negar ou repudiar, permitindo-se avaliar novos
conceitos, vivenciar emoções e ações
sem apreciar, julgar ou justificar. A auto aceitação
evita que a pessoa se comporte como se estivesse sendo julgada,
agindo sempre na defensiva.
O
senso de responsabilidade.
Consiste
em perceber que somos autores de nossas escolhas e ações.
Cada um de nós é responsável pela própria
vida, pelo próprio bem estar e pela realização
de nossas metas. Para atingi-las, precisamos da cooperação
de outras pessoas. Em lugar da pergunta "de quem é
a culpa" é melhor dizer "o que precisa ser
feito".
A
conduta afirmativa.
O primeiro
passo para a postura afirmativa e respeitar os próprios
valores e os das outras pessoas, recusando-se a camuflar a
realidade. É estar disposto a defender a si mesmo e
suas idéias de forma apropriada e em circunstâncias
apropriadas. Os pais que mostram esta conduta ajudam os filhos
a serem mais afirmativos e responsáveis pelas suas
escolhas.
A
prática de estabelecer objetivos.
Consiste
em tomar providências necessárias para concretizar
os objetivos, organizar o comportamento em função
desses objetivos, monitorar as ações para garantir
que se está no caminho certo, prestando atenção
ao resultado para saber se será preciso recomeçar,
redirecionar. Esta prática desenvolve nos filhos a
iniciativa e a autodisciplina.
A
integridade pessoal.
Dizer
a verdade, honrar nossos compromissos e servir de exemplo
dos valores que declaramos admirar é a melhor maneira
de estimular a integridade pessoal nos nossos filhos. Tratar
o outro de maneira justa e bondosa assegura uma vivência
baseada em valores e princípios. O melhor exemplo de
integridade é mostrar coerência entre o que se
fala e o que se faz...
Os pais
raramente percebem quanto a sua índole influi em quase
todos os aspectos da criação dos filhos. As
facetas mais insignificantes de seu comportamento são
notadas e registradas. Quando ele trata o outro com respeito,
transmite coerência, mostra que é confiável.
Quando
os pais são atentos a sua auto estima, servem de exemplo
aos filhos. Se os pais não transmitem confiança
em si não podem inspirar isto nos filhos.
Por isto
uma pergunta é inevitável: "será
que o meu comportamento reflete os traços que desejo
ver nos meus filhos?"
Aspectos
relevantes no desenvolvimento da auto estima
Respeito
O tratamento
respeitoso deve ser demonstrado através de ações
concretas. Pais e filhos devem aprender a expressar idéias,
a ouvir atentamente, a dizer de forma respeitosa e oportuna
a maneira como um se sente em relação ao outro.
Responsabilidade
por recursos
A maioria
das pessoas ainda não aprendeu a valorizar os recursos
disponíveis. Descuidam-se do meio ambiente, não
sabem evitar desperdícios. É preciso construir
na família o hábito de assumir responsabilidade
e respeito pelos recursos. Afinal, tem sido muito difícil
ganhar dinheiro. E é muito fácil gastá-lo.
Em cenário de crescente desemprego, o respeito aos
recursos torna-se um fator crítico.
Assumir
riscos
Para apoiar
a iniciativa de assumir riscos deve-se aceitar a inevitabilidade
do erro. Pessoas de elevada auto-estima arriscam-se com mais
facilidade que aquelas menos autoconfiantes. Em muitas famílias
prega-se que os filhos devem tomar iniciativas, mas se ocorrem
erros ou fracassos o tratamento nem sempre é apoiador,
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estimulador da melhoria do desempenho.
Recompensa
e reconhecimento
Uma das
maneiras mais eficazes de inspirar as pessoas é o reconhecimento
pelo que foi bem feito. Pais e filhos esperam uma recompensa
material, mas também moral. Pessoas de baixa autoestima
costumam achar difícil elogiar o sucesso dos outros:
a inveja e o ressentimento impedem o reconhecimento. A família
precisa ter como alicerce a estima mútua, traduzida
pelo reconhecimento e a coragem de elogiar.
Relacionamento
afetuoso
Tradicionalmente
acreditava-se que o relacionamento afetuoso enfraquecia o
exercício da autoridade. Relações de
medo e desrespeito entre pais e filhos levam a impessoalidade
do controle e à subserviência que deterioram
com a autoestima. Quando as relações são
autênticas, ouvimos, respeitamos e apoiamos um ao outro,
o que faz melhorar a motivação.
Os pais
devem ser exemplo dos valores, de modo a inspirar o comportamento
dos filhos. A descrença, a mentira, a grosseria e a
ausência de dignidade não constróem uma
base para sustentar relações respeitosas. A
desconfiança decorre principalmente da distância
entre o discurso e a ação.
Concluindo:
A família
precisa começar a desenhar sua própria transformação,
incentivando comportamentos que sustentem a auto-estima. Estamos
precisando de uma revolução em nossa maneira
de pensar sobre nós e sobre a nossa relação
com os filhos.
Por se
tratar de tarefa difícil, um grande círculo
de apoio precisa se instalar. A começar pela real parceria
família e escola. Os pais precisam participar intensamente
das atividades promovidas pela escola, e incentivar os filhos
a gostarem de aprender. A escola está cada vez mais
consciente que educar não é sinônimo de
dar aulas, de ajudar os alunos a passarem no vestibular.
Seu papel
é cada vez mais formar um cidadão capaz de contribuir
para a transformação desta sociedade por demais
violenta.
É
chegado o momento de praticar o que Howard Gardner, psicólogo
e pesquisador da Harvard afirma:
"Ser
inteligente se traduz na capacidade de resolver problemas
e elaborar produtos e serviços que sejam valorizados
pela comunidade e contribuam para melhorar a qualidade de
vida das pessoas".
A parceria
família-escola-comunidade é a saída possível
para o renascimento de ética e o aprimoramento da cidadania.
Edina
de Paula Bom Sucesso é Psicóloga, Mestre em
Administração de Empresas e Diretora da ERGON
Consultores Associados.
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