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Limite e auto estima: pilares das relações pais e filhos

Edina de Paula Bom Sucesso

O papel do limite na educação dos filhos

Introdução

Certamente as crianças de hoje não conseguem imaginar como os seus avós viviam sem fax, telefones celulares, Internet. Os recursos tecnológicos e os canais de comunicação mostram extraordinárias transformações, mas grande parte dos dilemas e queixas entre as gerações permanecem. Quartos desorganizados, objetos deixados por toda a casa, brigas entre irmãos, desobediência, são queixas apontadas pelos pais pelo menos há três décadas.

É freqüente ouvir os pais comentarem que os filhos saem de casa nos dias de hoje no horário em que eles estavam chegando. Muitos pais ficam indignados quando os amigos dos filhos invadem sua casa sem sequer cumprimentar.

Os professores por sua vez queixam-se da indisciplina, das notas baixas, do desinteresse pelas aulas.

Muitos ainda jogam lixo pelas ruas, deixam banheiros imundos, não sabem regular o alimento, deixando sobrar comida nos pratos.

Na classe média instalou-se um forte consumismo e os adolescentes só se sentem aceitos no seu grupo de referência quando vestem roupas de marca, compram o tênis do momento.

Com a entrada da mulher no mercado de trabalho, os filhos ficam cada vez mais sozinhos e os pais tentam suprir a ausência com presentes, objetos cujo preço não se justifica. Diante destes dilemas, muitos se sentem perdidos, culpados, impotentes, desamparados, irritados, agressivos.

Dificilmente conseguem manter um diálogo esclarecedor em ambiente de respeito e equilíbrio.

Conflitos se instalam, cresce o número de casamentos desfeitos. A procura de psicólogos sinaliza muitas vezes a dificuldade dos pais em assumir a responsabilidade de tratar os problemas diretamente com os filhos, buscando ajuda de especialistas.

Realidades sobre a criação dos filhos.

Longe de se tratar de um problema simples, passível de solução mágica, a educação dos filhos é um desafio cujas bases são culturais. Os pais precisam admitir que também são humanos e os seus recursos emocionais são limitados. As dificuldades e as crises familiares são inevitáveis. Se os filhos vêem os pais discutindo, mas resolvendo os problemas, podem aprender uma importante lição. As pequenas insatisfações podem ajudar a aprender a lidar com outras maiores que a vida certamente trará.

Por se tratar de uma questão complexa, alguns aspectos parecem particularmente importantes e merecem ser destacados.

Por razões variadas, alguns pais abrem mão de sua autoridade, quer por temer o rótulo de "careta", quer por acreditar que as crianças não podem ser tolhidas nas suas reações para se tornarem adultos livres, sem traumas. Tornam-se permissivos, não colocam limites, aceitam inclusive, chutes, gritos, tratamento grosseiro. Estas crianças vão se tornam irritadas, agressivas. Embora os pais acreditem que encontrarão o próprio rumo, o que mais se observa é que estas crianças se tornam isoladas, contam com poucos amigos, tornam-se indesejadas pelos familiares que fazem tudo para evitarem o contato com elas.

Quando adultos muitos se mostram indecisos, inseguros, incapazes de persistir e lidam muito mal com perdas e frustrações.

Outros pais acreditam que os problemas se resolvem por si mesmos. Parecem não enxergar o que se passa, fazem comentários simplistas, não se posicionam diante das situações críticas. Os filhos sentem-se inseguros, perdidos, com grande dificuldade para tomar decisão. Aprendem a manipular, mentir, como forma de obter aquilo que desejam.

Existem ainda os pais reprovadores e ásperos que além de pouca manifestação de afeto cobram aquilo que foge da sua expectativa, mas são incapazes do reconhecimento e do elogio. Estas crianças acabam por apresentar baixa estima, sentem-se culpadas, buscam esconder o medo dos desafios ora mostrando conduta obediente e passiva, ora rebelando-se e mostrando explosões emocionais sem motivo aparente.

O grande desafio está mesmo em estabelecer um estilo de convivência que permita explicar os fatos com carinho, colocar limites sem violência. Aprender a focar os problemas, sem agredir a personalidade do filho e a reprimir as ações, os comportamentos indesejados e não as emoções. Sabem que os filhos têm todo o direito de expressar a irritação, o medo e raiva, mas nem por isto podem bater, atirar ou quebrar objetos quando estão furiosos.

Os filhos precisam aprender que podem ter raiva, mas não precisam odiar a pessoa ou fazer comentários maldosos.

Reprimir a ação implica não censurar os sentimentos. Um irmão pode sentir raiva do outro, mas os adultos não podem permitir que se agridam fisicamente, briguem de forma violenta.

Sentimentos e desejos são legítimos e aceitáveis, mas muitos comportamentos não podem ser aceitos nem estimulados.

Estas crianças aprendem se aclamar, concentrar-se no problema, recuperar-se das frustrações. O diálogo e o limite ajudam a passar o desconforto, o mal estar, a agonia.

Nas relações diárias onde os limites ajudam a ampliar o auto conhecimento, a autocrítica, estimulando a criança a saber como é percebido e especialmente a expressar os seus sentimentos.

Uma prática essencial

Os pais podem ajudar na expansão do auto conhecimento, substituindo a freqüente tendência a censurar ou desconhecer, pela postura de esclarecer os fatos e as situações ampliando o hábito de perguntar:

  • O que aconteceu?
  • Quando foi isto?
  • Quem o magoou?
  • Você está triste?

Perguntas como estas ajudam o filho a entender o seu estado emocional e criam clima para uma conversa aberta e não avaliativa.

Ao ajudar a admitir e nomear a emoção, os pais instalam o processo de orientar o filho a regular as emoções e muitas vezes nem se torna necessária à colocação de limites, uma vez que podem ser estabelecidos compromissos negociados.

Caso os pais constatem que exageraram nos limites, podem pedir desculpas, explicar as razões:

- Sempre que estou tenso, tendo a exagerar. Peço que me desculpe. Estou disposto a me controlar para não agir assim em momentos de tensão e descontrole".

Este comentário destaca a inconveniência de se colocar limites:

  • com raiva,
  • com pressa,
  • nos momentos de cansaço,
  • na presença de terceiros.

Momentos de fortes emoções pedem equilíbrio. Os pais podem aprender o auto controle e mesmo experimentando raiva podem evitar bater, fazer ameaças que depois não conseguem cumprir, tomar cuidado para não expressar desprezo, usar de ironia ou sarcasmo.

Os pais precisam conhecer e acolher os amigos dos filhos. Só assim podem saber com quem eles andam, de quem gostam. Conhecendo os amigos podem mapear as preferências e estar atentos às influências dos amigos nos comportamentos e atitudes dos seus filhos.

Cada vez mais fica evidente a necessidade de se estabelecer uma rede de apoio emocional aos filhos. Parentes e pessoas significativas podem ajudar os nossos filhos em situações difíceis, momentos de perdas e conflitos. Se o filho está triste e não mostra disposição para conversar, é importante que os pais o estimulem, sugerindo que se abram com alguém. Nestes momentos não vale o egoísmo de querer que o filho só tenha como amigo ou confidente o pai ou a mãe. Um amigo, um vizinho, tio ou tia pode ajudar, escutando e orientando. Cada situação pode requerer um tipo de interlocutor e é saudável que o filho escolha pessoas de confiança com quem se sintam seguros para expressar seus sentimentos e buscar apoio emocional em situações difíceis.

A construção de dias melhores para pais e filhos

Raízes da auto estima.

Auto estima pode ser conceituada como a experiência de ser competente para lidar com os desafios básicos da vida e de sentir-se merecedor de felicidade. É a confiança em na própria capacidade de aprender, tomar decisões, fazer escolhas apropriadas na vida. Alguns pontos são essenciais para construir a auto estima:

Viver conscientemente: Os pais devem estar atentos à necessidade de aturarem de modo a mostrar para os filhos que respeitam os fatos, são abertos ao feed back, ou seja, á prática de ouvir críticas e refletir sobre elas. Assim despertam os filhos para a importância de compreender não apenas o mundo à sua volta, mas também nosso mundo interior, despertando para a necessidade da determinação para enfrentar a realidade, ainda que seja desagradável.
A auto aceitação:

É a disposição para admitir, experimentar a assumir a responsabilidade por pensamentos, sentimentos e ações, sem fugir, negar ou repudiar, permitindo-se avaliar novos conceitos, vivenciar emoções e ações sem apreciar, julgar ou justificar. A auto aceitação evita que a pessoa se comporte como se estivesse sendo julgada, agindo sempre na defensiva.

O senso de responsabilidade.

Consiste em perceber que somos autores de nossas escolhas e ações. Cada um de nós é responsável pela própria vida, pelo próprio bem estar e pela realização de nossas metas. Para atingi-las, precisamos da cooperação de outras pessoas. Em lugar da pergunta "de quem é a culpa" é melhor dizer "o que precisa ser feito".

A conduta afirmativa.

O primeiro passo para a postura afirmativa e respeitar os próprios valores e os das outras pessoas, recusando-se a camuflar a realidade. É estar disposto a defender a si mesmo e suas idéias de forma apropriada e em circunstâncias apropriadas. Os pais que mostram esta conduta ajudam os filhos a serem mais afirmativos e responsáveis pelas suas escolhas.

A prática de estabelecer objetivos.

Consiste em tomar providências necessárias para concretizar os objetivos, organizar o comportamento em função desses objetivos, monitorar as ações para garantir que se está no caminho certo, prestando atenção ao resultado para saber se será preciso recomeçar, redirecionar. Esta prática desenvolve nos filhos a iniciativa e a autodisciplina.

A integridade pessoal.

Dizer a verdade, honrar nossos compromissos e servir de exemplo dos valores que declaramos admirar é a melhor maneira de estimular a integridade pessoal nos nossos filhos. Tratar o outro de maneira justa e bondosa assegura uma vivência baseada em valores e princípios. O melhor exemplo de integridade é mostrar coerência entre o que se fala e o que se faz...

Os pais raramente percebem quanto a sua índole influi em quase todos os aspectos da criação dos filhos. As facetas mais insignificantes de seu comportamento são notadas e registradas. Quando ele trata o outro com respeito, transmite coerência, mostra que é confiável.

Quando os pais são atentos a sua auto estima, servem de exemplo aos filhos. Se os pais não transmitem confiança em si não podem inspirar isto nos filhos.

Por isto uma pergunta é inevitável: "será que o meu comportamento reflete os traços que desejo ver nos meus filhos?"

Aspectos relevantes no desenvolvimento da auto estima

Respeito

O tratamento respeitoso deve ser demonstrado através de ações concretas. Pais e filhos devem aprender a expressar idéias, a ouvir atentamente, a dizer de forma respeitosa e oportuna a maneira como um se sente em relação ao outro.

Responsabilidade por recursos

A maioria das pessoas ainda não aprendeu a valorizar os recursos disponíveis. Descuidam-se do meio ambiente, não sabem evitar desperdícios. É preciso construir na família o hábito de assumir responsabilidade e respeito pelos recursos. Afinal, tem sido muito difícil ganhar dinheiro. E é muito fácil gastá-lo. Em cenário de crescente desemprego, o respeito aos recursos torna-se um fator crítico.

Assumir riscos

Para apoiar a iniciativa de assumir riscos deve-se aceitar a inevitabilidade do erro. Pessoas de elevada auto-estima arriscam-se com mais facilidade que aquelas menos autoconfiantes. Em muitas famílias prega-se que os filhos devem tomar iniciativas, mas se ocorrem erros ou fracassos o tratamento nem sempre é apoiador,

estimulador da melhoria do desempenho.

Recompensa e reconhecimento

Uma das maneiras mais eficazes de inspirar as pessoas é o reconhecimento pelo que foi bem feito. Pais e filhos esperam uma recompensa material, mas também moral. Pessoas de baixa autoestima costumam achar difícil elogiar o sucesso dos outros: a inveja e o ressentimento impedem o reconhecimento. A família precisa ter como alicerce a estima mútua, traduzida pelo reconhecimento e a coragem de elogiar.

Relacionamento afetuoso

Tradicionalmente acreditava-se que o relacionamento afetuoso enfraquecia o exercício da autoridade. Relações de medo e desrespeito entre pais e filhos levam a impessoalidade do controle e à subserviência que deterioram com a autoestima. Quando as relações são autênticas, ouvimos, respeitamos e apoiamos um ao outro, o que faz melhorar a motivação.

Os pais devem ser exemplo dos valores, de modo a inspirar o comportamento dos filhos. A descrença, a mentira, a grosseria e a ausência de dignidade não constróem uma base para sustentar relações respeitosas. A desconfiança decorre principalmente da distância entre o discurso e a ação.

Concluindo:

A família precisa começar a desenhar sua própria transformação, incentivando comportamentos que sustentem a auto-estima. Estamos precisando de uma revolução em nossa maneira de pensar sobre nós e sobre a nossa relação com os filhos.

Por se tratar de tarefa difícil, um grande círculo de apoio precisa se instalar. A começar pela real parceria família e escola. Os pais precisam participar intensamente das atividades promovidas pela escola, e incentivar os filhos a gostarem de aprender. A escola está cada vez mais consciente que educar não é sinônimo de dar aulas, de ajudar os alunos a passarem no vestibular.

Seu papel é cada vez mais formar um cidadão capaz de contribuir para a transformação desta sociedade por demais violenta.

É chegado o momento de praticar o que Howard Gardner, psicólogo e pesquisador da Harvard afirma:

"Ser inteligente se traduz na capacidade de resolver problemas e elaborar produtos e serviços que sejam valorizados pela comunidade e contribuam para melhorar a qualidade de vida das pessoas".

A parceria família-escola-comunidade é a saída possível para o renascimento de ética e o aprimoramento da cidadania.

Edina de Paula Bom Sucesso é Psicóloga, Mestre em Administração de Empresas e Diretora da ERGON Consultores Associados.

 

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