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Metrópoles - Como salvar os grandes centros urbanos

Inchadas e paralisadas por problemas, as metrópoles ainda oferecem as melhores oportunidades de progresso pessoal

Por: Luiz Guilherme Megale

Um dos fenômenos mais marcantes da demografia nessa virada de milênio é a concentração populacional nas cidades. A ONU calcula que cinco em cada dez habitantes do planeta vivam nelas hoje, três deles em grandes núcleos urbanos de países pobres. Dentro de trinta anos, seis em cada dez pessoas viverão em cidades. Cinco delas estarão empilhadas em megalópoles do Terceiro Mundo. Nesses lugares, já se prevê hoje, o cotidiano deverá ser uma mistura de desigualdades, favelas abarrotadas, estrutura sanitária precária, poluição atmosférica e hordas de migrantes chegando sem parar das regiões mais pobres atrás de melhores condições de vida. Encaixam-se nesse modelo cidades como Calcutá, Délhi, Bombaim, Cidade do México, Jacarta e São Paulo, cuja fama de eldorado econômico atrai mais pobreza do que a riqueza que conseguem gerar. Como toda previsão feita por organismos internacionais, o vaticínio da ONU surge como um grito de alerta e clama por ações urgentes. E também ajuda a observar de maneira mais atenta exemplos que mostram que as grandes cidades não estão condenadas ao inferno urbano. Elas podem mudar seu destino.

Quem imaginava um dia ver as metrópoles americanas como a Los Angeles retratada no filme Blade Runner dificilmente encontrará esse tipo de modelo urbano entre as cidades ricas. Os centros urbanos dos países desenvolvidos praticamente se estabilizaram e em alguns casos diminuíram sua população e o crescimento descontrolado. Londres, na Inglaterra, tem menos habitantes hoje que há vinte anos. Como ela, suas congêneres dos países ricos provam que é possível morar em centros urbanos e isso ser sinônimo de qualidade de vida. "As cidades da América Latina estão constantemente correndo atrás do prejuízo, ao contrário de capitais do Primeiro Mundo, que souberam organizar o crescimento", diz a urbanista Regina Prosperi Meyer. "O problema é que nos países mais pobres usa-se o orçamento das cidades para atacar os problemas emergenciais. O imediatismo é sempre mais caro e o dinheiro que é usado para estancar o problema das enchentes deixa de ser destinado a questões prioritárias de infra-estrutura."

A capital inglesa é um exemplo de como uma metrópole pode se recuperar. Durante todo o século XIX e parte do século XX, indústrias utilizaram o Rio Tâmisa como um esgotão a céu aberto. Nos anos 60, a prefeitura decidiu que o imundo rio que cortava a capital deveria ser despoluído. Cerca de vinte anos depois, a água estava cristalina, e os londrinos comemoraram quando foi encontrado o primeiro cavalo-marinho. O projeto foi essencial ao renascimento da cidade, na época abandonada por indústrias, lojas e escritórios e dona de um dos maiores índices de desemprego da Europa. A região portuária recebeu modernos escritórios, lojas, prédios de apartamentos e uma rede de transportes que a ligou com o resto da cidade. O Tâmisa ganhou em suas margens vários projetos empresariais, além de vias para pedestres e bicicletas. A abertura de novos negócios foi estimulada e o desemprego sumiu. Desde então, a economia prospera e a cidade é dona de um dos mais eficientes serviços de transporte urbano do mundo. A agitada e segura vida noturna e os eventos culturais que pipocam pelas esquinas atraem turistas do mundo todo.

A história de Nova York é parecida. A cidade sofreu dramaticamente com a poluição atmosférica, principalmente no período entre 1953 e 1966, quando chegou a parar completamente três vezes durante o período de uma semana para que a poluição se dissipasse. Em cada um desses episódios morreram entre 25 e trinta pessoas por dia devido a problemas respiratórios decorrentes dos gases dispersos na atmosfera. A qualidade do ar melhorou com a entrada em vigor do Clean Air Act, lei federal que regulamenta não apenas as emissões, mas também a forma como o governo deve tratar o assunto. No fim da década de 70, a ameaça à qualidade de vida em Nova York era outra. O alto custo dos aluguéis afastou as indústrias instaladas ao redor da cidade, o que acabou alavancando o esemprego e a criminalidade. Manhattan havia se tornado um dos lugares mais perigosos dos Estados Unidos. O turismo, uma das principais fontes de renda locais, entrou em decadência. Na década de 80, a cidade começou a se reerguer e, nos anos 90, um projeto de revitalização urbana tocado com firmeza livrou a cidade das últimas mazelas. Com a chamada tolerância zero, a Justiça passou a agir rigorosamente mesmo em pequenos delitos. Os impostos diminuíram e o poder público assumiu o papel de atrair novas empresas para a região. Nova York tornou-se limpa, bonita e organizada e recebe em média 6 milhões de visitantes estrangeiros por ano, que trazem à cidade 24 bilhões de dólares anuais. Não deixa de ser uma esperança para as problemáticas megalópoles do Terceiro Mundo.

 

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