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Um dos
fenômenos mais marcantes da demografia nessa virada
de milênio é a concentração populacional
nas cidades. A ONU calcula que cinco em cada dez habitantes
do planeta vivam nelas hoje, três deles em grandes núcleos
urbanos de países pobres. Dentro de trinta anos, seis
em cada dez pessoas viverão em cidades. Cinco delas
estarão empilhadas em megalópoles do Terceiro
Mundo. Nesses lugares, já se prevê hoje, o cotidiano
deverá ser uma mistura de desigualdades, favelas abarrotadas,
estrutura sanitária precária, poluição
atmosférica e hordas de migrantes chegando sem parar
das regiões mais pobres atrás de melhores condições
de vida. Encaixam-se nesse modelo cidades como Calcutá,
Délhi, Bombaim, Cidade do México, Jacarta e
São Paulo, cuja fama de eldorado econômico atrai
mais pobreza do que a riqueza que conseguem gerar. Como toda
previsão feita por organismos internacionais, o vaticínio
da ONU surge como um grito de alerta e clama por ações
urgentes. E também ajuda a observar de maneira mais
atenta exemplos que mostram que as grandes cidades não
estão condenadas ao inferno urbano. Elas podem mudar
seu destino.
Quem imaginava
um dia ver as metrópoles americanas como a Los Angeles
retratada no filme Blade Runner dificilmente encontrará
esse tipo de modelo urbano entre as cidades ricas. Os centros
urbanos dos países desenvolvidos praticamente se estabilizaram
e em alguns casos diminuíram sua população
e o crescimento descontrolado. Londres, na Inglaterra, tem
menos habitantes hoje que há vinte anos. Como ela,
suas congêneres dos países ricos provam que é
possível morar em centros urbanos e isso ser sinônimo
de qualidade de vida. "As cidades da América Latina
estão constantemente correndo atrás do prejuízo,
ao contrário de capitais do Primeiro Mundo, que souberam
organizar o crescimento", diz a urbanista Regina Prosperi
Meyer. "O problema é que nos países mais
pobres usa-se o orçamento das cidades para atacar os
problemas emergenciais. O imediatismo é sempre mais
caro e o dinheiro que é usado para estancar o problema
das enchentes deixa de ser destinado a questões prioritárias
de infra-estrutura."
A capital
inglesa é um exemplo de como uma metrópole pode
se recuperar. Durante todo o século XIX e parte do
século XX, indústrias utilizaram o Rio Tâmisa
como um esgotão a céu aberto. Nos anos 60, a
prefeitura decidiu que o imundo rio que cortava a capital
deveria ser despoluído. Cerca de vinte anos depois,
a água estava cristalina, e os londrinos comemoraram
quando foi encontrado o primeiro cavalo-marinho. O projeto
foi essencial ao renascimento da cidade, na época abandonada
por indústrias, lojas e escritórios e dona de
um dos maiores índices de desemprego da Europa. A região
portuária recebeu modernos escritórios, lojas,
prédios de apartamentos e uma rede de transportes que
a ligou com o resto da cidade. O Tâmisa ganhou em suas
margens vários projetos empresariais, além de
vias para pedestres e bicicletas. A abertura de novos negócios
foi estimulada e o desemprego sumiu. Desde então, a
economia prospera e a cidade é dona de um dos mais
eficientes serviços de transporte urbano do mundo.
A agitada e segura vida noturna e os eventos culturais que
pipocam pelas esquinas atraem turistas do mundo todo.
A história
de Nova York é parecida. A cidade sofreu dramaticamente
com a poluição atmosférica, principalmente
no período entre 1953 e 1966, quando chegou a parar
completamente três vezes durante o período de
uma semana para que a poluição se dissipasse.
Em cada um desses episódios morreram entre 25 e trinta
pessoas por dia devido a problemas respiratórios decorrentes
dos gases dispersos na atmosfera. A qualidade do ar melhorou
com a entrada em vigor do Clean Air Act, lei federal que regulamenta
não apenas as emissões, mas também a
forma como o governo deve tratar o assunto. No fim da década
de 70, a ameaça à qualidade de vida em Nova
York era outra. O alto custo dos aluguéis afastou as
indústrias instaladas ao redor da cidade, o que acabou
alavancando o esemprego e a criminalidade. Manhattan havia
se tornado um dos lugares mais perigosos dos Estados Unidos.
O turismo, uma das principais fontes de renda locais, entrou
em decadência. Na década de 80, a cidade começou
a se reerguer e, nos anos 90, um projeto de revitalização
urbana tocado com firmeza livrou a cidade das últimas
mazelas. Com a chamada tolerância zero, a Justiça
passou a agir rigorosamente mesmo em pequenos delitos. Os
impostos diminuíram e o poder público assumiu
o papel de atrair novas empresas para a região. Nova
York tornou-se limpa, bonita e organizada e recebe em média
6 milhões de visitantes estrangeiros por ano, que trazem
à cidade 24 bilhões de dólares anuais.
Não deixa de ser uma esperança para as problemáticas
megalópoles do Terceiro Mundo.
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