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Devido
à importância dos oceanos na economia global
e no sistema climático, não atingiremos um desenvolvimento
duradouro e sustentável sem litorais e oceanos sadios.
Pesqueiros produtivos e bem manejados desempenham um papel
significativo no desenvolvimento econômico global, segurança
alimentar, alívio da pobreza e saúde humana.
Mas, desde a Rio-92, a maioria dos recursos litorâneos
foi alvo de ações predatórias e degradação.
Os esforços atuais para a proteção de
litorais e oceanos não atingirão seus objetivos
caso não consigam maior integração na
agenda mais abrangente de desenvolvimento social que será
enfocada na Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável
de 2002, a ser realizada brevemente em Joanesburgo.
Recursos
costeiros e marinhos representam um rico patrimônio
para a construção de um mundo sustentável.
O valor dos bens e serviços ecológicos marinhos
é estimado em US$ 21 trilhões anuais - 70 %
superior aos sistemas terrestres. Um bilhão de pessoas
depende de peixes como fonte primária de proteína
animal, principalmente nos países em desenvolvimento.
Cerca de 90 % do pescado comercial mundial é capturado
em regiões costeiras e ao longo das plataformas continentais.
As pressões
humanas sobre os recursos costeiros estão se acelerando.
Quase metade da humanidade - aproximadamente 2,8 bilhões
de pessoas - vive hoje a 100 quilômetros de um litoral,
contra 2 bilhões em 1992. A maioria das mega cidades
mundiais (com mais de 8 milhões de habitantes) é
costeira. Até meados do século, o número
de habitantes costeiros deverá inchar para 6,3 bilhões
de pessoas, cerca de 75 % da população mundial.
As regiões costeiras também sustentam a maior
concentração mundial de infra-estrutura de apoio,
instalações fabris, uso de energia, turismo
e produção de alimentos. Considerando seu gigantesco
valor econômico e ecológico, a proteção
destas áreas é fundamental.
Desde
a Rio-92, os cientistas reconhecem que a pesca predatória
é a causa principal do colapso dos ecossistemas marinhos
em muitas regiões. O volume de pescado global estagnou
a partir de 1990. 70 % dos estoques pesqueiros estão
hoje sobre-explorados - ou esgotados. A pesca comercial também
é altamente perdulária: no processamento anual
de 85 milhões de toneladas de peixes, os pescadores
descartam rotineiramente, no mínimo, 20 milhões
de toneladas de pescado indesejado e de espécies marinhas,
que são geralmente mortas.
Durante
a década de 90, os recifes de coral mundiais sofreram
um duro golpe. Entre 1992 e 2000, a parcela de recifes de
coral gravemente danificada por ação humana
direta e pelo aquecimento global elevou-se de 10 para 27 %.
Além disto, até 2030, 60 % dos recifes de coral
em todo o mundo poderá desaparecer caso os oceanos
continuem a se aquecer.
Poluição, pesca predatória e atividades
terrestres - como desmatamento, agricultura, desvios fluviais
e desenvolvimento industrial - todos contribuem para a degradação
de valiosos habitats costeiros. Metade das terras alagadas
costeiras do mundo foi aterrada ou irremediavelmente alterada
por empreendimentos imobiliários.
Danos
costeiros também têm efeito direto na saúde
humana. Nos países em desenvolvimento, 70 % dos resíduos
industriais e 90 % dos esgotos são despejados sem tratamento
em águas superficiais, onde poluem aqüíferos,
mananciais e áreas costeiras. Estima-se que, anualmente,
250 milhões de pessoas desenvolvem crises de gastroenterite
e doenças respiratórias ao nadarem em mares
contaminados. E produtos químicos tóxicos têm
contribuído para o colapso reprodutivo em mamíferos
marinhos e problemas de saúde nas pessoas que se alimentam
de peixes. (Dois terços dos mamíferos marinhos
estão hoje classificados como espécies sob ameaça
de extinção, conforme o Livro Vermelho da IUCN).
A piscicultura
tanto aumentou a produtividade quanto prejudicou as áreas
costeiras. Desde a Rio-92, a produção da aqüicultura
global mais que duplicou, de 15 milhões de toneladas
de peixe, em 1992, para 36 milhões de toneladas em
2000. Cerca de 40 % dos peixes cultivados são criados
em áreas costeiras e marinhas. Esta atividade causou
a destruição de manguezais, poluição
em larga escala por antibióticos e outros produtos
químicos, e deslocamento de pesqueiros tradicionais.
Uma das
maiores ameaças em potencial para todos os recursos
marinhos e costeiros é o aquecimento global. A mudança
climática mundial aquecerá as temperaturas médias
oceânicas, alterará padrões de circulação
marinha e afetará a produtividade biológica
marinha.
A mudança
climática também contribuirá para a elevação
do nível do mar, com o Painel Intergovernamental sobre
Mudança Climática prevendo uma elevação
de um metro nos próximos 80 anos. Níveis mais
elevados do mar aumentam o impacto das ressacas, aceleram
a degradação de habitats, alteram as variações
das marés, modificam os padrões de circulação
de sedimentos e nutrientes, e agravam as enchentes.
Oceanos
em elevação desabrigarão aproximadamente
um bilhão de pessoas que vivem a poucos metros do nível
do mar. Muitas destas pessoas vivem nos países mais
pobres e mais densamente habitados do mundo.
SOLUÇÕES
Países
negociaram vários acordos ecológicos marinhos
seguros desde areunião
do Rio, incluindo a Convenção das Nações
Unidas sobre Estoques de Peixes Trans-zonais e de Peixes Altamente
Migratórios (doravante, Acordo da ONU sobre Estoques
de Peixes) e o Programa de Ação Global para
a Proteção do Meio Ambiente Marinho contra Atividades
Terrestres. Mas ainda estamos longe da implementação
plena desses acordos em nível mundial. Joanesburgo
oferece uma boa oportunidade para impulsionar o cumprimento
desses acordos e ressaltar a importância de oceanos
sadios para lidar com a pobreza, segurança alimentar
e questões populacionais. A fim de proteger recursos
oceânicos e costeiros, precisaremos implementar programas
de gestão costeira, incrementar o manejo da pesca,
aumentar as pressões de consumidores e empresas em
prol da pesca sustentável e acabar com o aquecimento
global.
Implementar
Programas de Gestão Costeira
- O Capítulo
18 da Agenda 21 e o Mandato de Jacarta sobre Diversidade
Marinha e Costeira da Convenção sobre Diversidade
Biológica, requerem que os países implementem
planos nacionais de proteção aos recursos
costeiros. Embora tenha havido avanços na implantação
desses planos, metade dos países costeiros mundiais
ainda não promulgou qualquer tipo de legislação
costeira. E a maioria dos países não dispõe
de mecanismos formais para coordenar questões costeiras
e oceânicas, sem falar da integração
de questões marinhas às questões do
uso do solo, urbanização e população.
- Para
ter eficácia, uma gestão costeira integrada
deverá engajar representantes locais de vários
setores que afetam áreas litorâneas, inclusive
turismo e agricultura, além de interessados sub-representados,
particularmente as mulheres.
- A fim
de atingir a meta da Declaração do Milênio
das Nações Unidas, de reduzir pela metade
o número de pessoas que vivem na pobreza, até
2015, o Banco Mundial e agências de ajuda externa
deverão objetivar programas de redução
da pobreza em áreas costeiras em crescimento.
- Conforme
determinação do Mandato de Jacarta, os países
deverão se empenhar na identificação
de áreas de alta diversidade biológica marinha,
especialmente recifes de coral e águas rasas ameaçadas,
estabelecendo redes regionais de Áreas de Proteção
Marinha.
- Os
países deverão atender à convocação
do Programa de Ação Global, melhorando voluntariamente
a gestão municipal de saneamento e esgotamento sanitário
para a proteção da saúde humana e dos
recursos costeiros.
Incrementar
o Manejo da Pesca
- O Acordo
da ONU sobre Estoques de Peixes entrou em vigor em dezembro
de 2001, porém 15 das principais nações
pesqueiras ainda não o ratificaram. É essencial
que todas as nações que pescam em águas
distantes ratifiquem o acordo.
- As
nações pesqueiras deverão implementar
rapidamente o Plano de Ação Internacional
para Impedir a Pesca Ilegal, Não Divulgada e Não
Regulamentada. Os países deverão investir
para sua maior aplicação e monitoramento em
águas internacionais e territoriais.
- Tanto
a Declaração de Reykjavik sobre Pesca Responsável,
de 2001, e o Código de Conduta da FAO para a Pesca
Responsável, de outubro de 2001, requerem uma abordagem
ao manejo de pesqueiros com base no ecossistema. A fim de
atingir este objetivo, as nações pesqueiras
deverão adotar os princípios do "direito
de saber" à coleta de dados pesqueiros.
- Em
reconhecimento ao sucesso da Moratória das Nações
Unidas sobre Redes de Arrasto de Alto-Mar, os países
membros deverão restringir outros tipos de equipamentos
danosos de pesca, especialmente linhas longas e traineiras
com altas taxas de pescado indesejável.
- Os
países consumidores deverão pressionar as
principais nações pesqueiras na análise
e eliminação gradativa de US$ 15 bilhões
em subsídios anuais à pesca.
· Muitos subsídios permitem que países
industrializados comprem direitos de acesso à pesca
em países em desenvolvimento, onde freqüentemente
competem com pequenos pescadores. Desta forma, os países
em desenvolvimento deverão negociar condições
mais rígidas de acesso e proibição
total onde o recurso estiver exaurido.
Aumentar as Pressões de Consumidores e Empresas em
prol da Pesca Sustentável
- A FAO,
o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente
(PNUMA) e a Organização Internacional do Comércio
(OIT) deverão criar um sistema pelo qual peixes certificados
independentemente como ecologicamente seguros, através
de grupos como o Conselho de Manejo Marinho, possam receber
tratamento preferencial sob acordos bilaterais de comércio.
- Além
das informações que já fornecem sobre
contaminação química e biológica,
as organizações de consumidores deverão
avaliar pesqueiros em função do seu manejo
sustentável.
· Varejistas e restaurantes de frutos do mar, além
de fornecedores de aquários e consumidores, deverão,
sempre que possível, só adquirir peixes que
forem certificados como ecologicamente seguros.
Lidar com o Aquecimento Global
- Atualmente,
25 % do fornecimento mundial de energia advém de
recursos costeiros e oceânicos. A fim de ajudar a
desacelerar o aumento das emissões de carbono, as
empresas envolvidas em atividades energéticas marinhas
deveriam receber créditos fiscais para serem aplicados
em investimentos em fontes de energia renovável,
como marés e oceanos, além da eólica
e térmica
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